Eucir de Souza, o vilão de Jesus: “Caifás tem sido uma dádiva”

Ator festeja papel e diz que classe artística está forte apesar das tentativas de depreciá-la


  • 10 de novembro de 2018
Foto: Arquivo Pessoal


Por Luciana Marques

Ao celebrar 20 anos de uma bonita trajetória nas artes, com mais de 24 longas, 50 personagens no teatro, 10 séries e quatro novelas, Eucir de Souza dá vida a um dos grandes vilões atualmente da TV: o sumo sacerdote Caifás, da trama bíblica Jesus. “Esse papel tem sido uma dádiva”, diz. Tanto que o ator vem sentindo uma grande repercussão do trabalho através das redes sociais e também nas ruas. “O que mais ouço é, 'Eu te odeio'”, diverte-se ele, que até pouco tempo estava em cartaz com o espetáculo A Procura de Emprego, do francês Michel Vinaver.

O palco, aliás, é uma grande paixão do mineiro Eucir, natural de Guaxupé. E assim como a maioria dos artistas, ele enfrentou perrengues em sua chegada a São Paulo com 19 anos. Enquanto estudava na Escola de Arte Dramática, em São Paulo, trabalhou como garçom e com processamento de dados. E muitas vezes contou com amigos para dividir o jantar e as contas da casa. “Faria tudo de novo”, garante. E sobre o momento complicado para a cultura e a classe artística, o ator diz que, “apesar da tentativa de depreciá-los, nunca estiveram tão fortes e unidos”.

Caifás (Eucir de Souza). Foto: Blad Meneghel/Record TV

Como tem sido a experiência de dar vida ao sumo sacerdote Caifás?

É profundo e enriquecedor viver um personagem histórico e desse porte. Já comentamos isso entre nós do elenco, e consideramos um privilégio poder ser uma dessas figuras que estão tão fortemente impressas na mente de todos nós. Construí, a princípio, estudando o Caifás histórico e bíblico porque os capítulos ainda seriam escritos, uma figura emblemática. Com o tempo tenho tido a oportunidade de saber mais e mais como funcionam a mente e o coração de um home como esse, que tem atitudes que nos deixam perplexos. Fico pensando como alguém é capaz de ações assim. Acabo entendendo e até tomando um pouco o partido dele na trama, mas também fico grato por não tomar essas posições na minha vida real!

Marcella Muniz festeja primeira vilã, Judite: “Achincalhada”

Daniel Villas, o Malco, de Jesus: “Entre o certo e a devoção”

E a repercussão nas ruas, nas redes sociais, o que mais falam para você?

As pessoas têm falado bastante comigo nas ruas e me enviado mensagens pelas redes sociais. Dizem que estão gostando bastante da novela, que está linda, bem acabada, tem bons atores. Comentam sobre a beleza dos cenários e figurinos. Creio que devam ter críticas também, mas para mim ninguém fala nada. Porém, o que mais me falam é: 'Nossa, que raiva que você me dá! Homem nojento! Detesto as caras que você faz', etc. Fico muito feliz porque estão realmente vendo o Caifás e não o ator. Alguns poucos dizem até: 'Seu trabalho é muito bom, gosto de você, mas odeio o Caifás!'

 

 

Como você definiria o Caifás, ele é malvado mesmo, sem caráter, inescrupuloso, ou todas as maldades acontecem pela sua ganância de não perder o cargo de grande líder religioso?

Acredito que ninguém se considera malvado. Todos nós justificamos perfeitamente nossas atitudes por piores que sejam. Com ele não é diferente. Como sumo sacerdote sente-se ameaçado e reage por medo de perder seus ganhos que são altíssimos, sua posição como representante de Deus e todos os privilégios que isso acarreta. Além do mais, Jesus revela a todos, bem como para o próprio Caifás, quem ele realmente é como que o colocando de frente ao espelho, o que lhe é insuportável. Então ele se revela, para quem o vê de fora, inescrupuloso e sem limites para a vingança. Mas em nenhum momento, mesmo sendo tão clara a mensagem, ele se considera vil. Penso que o poder o cegou e isso parece ser irreversível.

Foto: Arquivo Pessoal

Ele é um personagem que existiu mesmo. Como buscou referências sobre ele, e o que mais surpreendeu você nessas pesquisas?

Já tinha algum conhecimento da Bíblia. Quando criança e adolescente, por conta da formação católica, adquiri o hábito de ler um trecho todas as noites antes de dormir. Assim, li o livro todo diversas vezes onde, na verdade, há poucas passagens onde ele é citado. Mas pelas atitudes que são descritas já se entende perfeitamente quem é Caifás. Busquei por outras fontes, mas geralmente a história é bem nebulosa sobre esse período e essas pessoas, pois tem muitas informações conflitantes. Mas sobre alguns fatos são unânimes: tratava-se de um homem muito poderoso e voltado para as coisas terrenas. O que me impressionou e me fez refletir bastante foi o fato de ele ter sido o sumo sacerdote que mais tempo permaneceu no cargo, muitos anos mais do que os outros, apesar de toda sua vilania. O ser humano é misterioso.

Acha que ele tem algum afeto por alguém, por alguma das mulheres?

Acho que sim. Penso que ele tem uma parceria verdadeira e amorosa com sua esposa Judite (Marcella Muniz), e que também nutre lá no fundo respeito e admiração por Livona (Bárbara Borges), sua serva. Mas isso é inaceitável para uma mente tão machista e classista como a de Caifás, pois acho que nem ele mesmo enxerga. Manifestou-se, no percurso que traçamos durante as gravações, respeito, admiração e um amor filial e sincero por Anás, seu mestre e sogro, brilhantemente interpretado pelo gigante Paulo Figueiredo. Quando Caifás passa de todos os limites, Anás deixa de apoiá-lo, perdendo o afeto e a consideração que nutria pelo genro. Podemos perceber claramente que Caifás sente esse golpe.

Judite (Marcella Muniz), Caifás (Eucir de Souza) e Livona (Bárbara Borges). Foto: Reprodução Instagram

Como tem sido a parceria com a Marcella Muniz e com a Bárbara Borges?

Uma honra, um privilégio e uma alegria dividir a cena com essas duas atrizes. Elas são lindas como se pode ver na novela. São também muito amorosas comigo e com toda a equipe, mas principalmente com o seu trabalho. Envolvidas e atentas, ao mesmo tempo que são leves e divertidas. Gosto muito das escolhas que elas fazem para as suas personagens. Vou para o trabalho feliz por saber que vou encontrá-las. Ficamos muitas horas juntos por dia, durante muitos meses, é um contato profundo. Também aprendi a admirá-las pelas pessoas que são na vida, fora de cena. Levarei essa amizade e essa admiração comigo para sempre.

É a sua primeira trama bíblica, né? Como tem sido essa experiência, já que a Record tem feito grandes produções nesse nicho, e ainda por cima numa história sobre a vida de Jesus?

Sim, é minha primeira, e tem sido uma experiência enriquecedora. A Record tem se firmado nesse segmento que ainda não havia sido explorado. Algumas tramas fizeram muito sucesso, o que mostra que tem muita gente ligada nesse tipo de conteúdo. Nesse contexto, a história de Jesus é a maior, na minha opinião. Está sendo maravilhoso e vejo como uma honra poder ajudar a contar esse acontecimento. A mensagem de Jesus segue sendo clara e necessária para conhecermos o homem desde sua época até hoje.

Qual a sua ligação com religião?

Tive uma forte formação católica, mas já faz algum tempo que não pratico nenhum dos ritos da igreja. O que segue dentro de mim é o cristianismo no seu sentido mais puro. Acredito firmemente nos dois principais mandamentos, segundo nos disse Jesus. Penso que 'amar ao próximo como a ti mesmo' e 'a Deus sobre todas as coisas' são a chave para bem convivermos e evoluirmos espiritualmente nesse mundo. Acredito na paz, no amor ao próximo e no respeito por todas as coisas vivas.

Anás (Paulo Figueiredo), Satanás (Mayana Moura) e Caifás (Eucir de Souza). Foto: Blad Meneghel/Record TV

Você é cria do teatro e também fez muitos filmes. Como avalia sua carreira? Acha que tudo tem acontecido no momento certo, até a chegada de um personagem como o Caifás nesse momento na TV?

O caminho tem sido por vezes surpreendente e nem sempre vou no tempo e do jeito que eu imaginava, mas sem dúvida tudo aconteceu e continua acontecendo no momento certo. O caminho que escolhi só me trouxe evolução e alegria até hoje. Tive o prazer e a honra de compartilhar a vida e a arte com pessoas que amo e admiro. Meu ofício exige de mim, diariamente, uma evolução técnica e um conhecimento cada vez mais profundo do meu corpo e do meu espírito. Agradeço esse privilégio. Caifás tem sido uma dádiva!

Ser ator no Brasil não é fácil. E pelo o que li, você passou alguns perrengues até conseguir um espaço nas artes. Tudo valeu a pena, faria tudo de novo?

Faria tudo de novo, exatamente como fiz. Muita coisa também aconteceu a minha revelia, me surpreendendo, na maioria das vezes, positivamente. O início foi mais difícil por conta, principalmente, de questões financeiras. Não conheço artista que não tenha passado por isso em algum momento de sua vida. Mas sempre tive o respeito e a consideração dos meus parceiros e do público. Desde os meus tempos de teatro amador sempre foi um ganho. Sim, vale muito a pena!

A cultura passa por uma crise muito grande. E você faz muito teatro, como a classe tem driblado isso?

Como sempre driblamos. Com amor, criatividade, fé, energia e alegria. Na verdade não vejo uma grande crise, o que vejo hoje é que as pessoas resolveram dizer o que realmente pensam e sentem. Isso é muito positivo e necessário para nossa evolução, mesmo que pensem e sintam que os artistas têm que ser destruídos ou destituídos de todo apoio governamental ou privado. Vivíamos uma falsa liberdade, onde podíamos dizer e fazer o que quiséssemos e todos fingiam que apoiavam ou ignoravam. Hoje, numa situação como essas, a arte e a educação passam, na verdade, a ocupar de volta o seu lugar. Para quem tem sede de evoluir, de se autoconhecer, de se abrir para ver de perto as belezas e as dores, sempre estaremos presentes. Tenho visto muitas tentativas mesmo de depreciar nosso papel, mas o resultado é que estamos mais unidos e fortes do que nunca!

Há algum projeto em paralelo com a novela ou para depois?

Tenho sim, devo fazer uma série assim que acabar a novela, mas não posso dizer onde e nem o que é por enquanto. Fiz também, antes de começar a novela, uma curta temporada da peça A Procura de Emprego, do francês Michel Vinaver. Trata-se de um texto necessário porque dialoga contundentemente com nossos tempos, tenho muita vontade de retomar o projeto. Estou controlando minha ansiedade porque o ritmo das gravações é intenso e ainda temos um tempo pela frente, então melhor esperar!



Veja Também