Robson Nunes: “Ser ator, negro e da periferia, é desafiador”

No ar em Espelho da Vida, ele lembra Zapping Zone e cita sorte por viver da arte desde novo


  • 26 de outubro de 2018
Foto: Globo/João Miguel Júnior


Por Luciana Marques

Referência no stand up comedy no Brasil, Robson Nunes, também conhecido por muitos já “grandinhos” hoje por ter apresentado durante uma década o Zapping Zone, do Disney Channel, faz a sua estreia em novelas em Espelho da Vida. O ator vive o assistente de direção Bola, amigo de Alain (João Vicente de Castro). “A gente acaba trazendo um pouco dessa bagagem da comédia. Qualquer espacinho, tento emplacar uma piada”, conta.

Filho de um pedreiro e de uma dona de casa, Robson, que iniciou a carreira aos 14 anos no cinema, admite que a sorte também o ajudou. “Ser ator, negro e da periferira, é um desafio grande. Mas tenho conseguido viver da minha arte desde então”, diz. E o ator só tem visto sua caminhada ser coroada com mais e mais trabalhos bacanas. No cinema, já tem 12 filmes no currículo, entre eles Carandiru e Tim Maia; e no teatro, muitos trabalhos como a comédia 3tosterona, com a qual se apresentou durante 16 anos ininterruptos.

O Portal ArteBlitz bateu um papo super descontraído com o Robson, que é casado com a também atriz e comediante Micheli Machado, com que tem Morena, de 7 anos. 

Bola (Robson Nunes), Josi (Thati Lopes), Alain (João Vicente de Castro) e Mariane (Kéfera). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Fale um pouco da experiência de participar de Espelho da Vida...

Eu fiquei muito feliz com o convite e sei que é clichê o que eu vou falar, mas foi um presente. Quando o Pedro Vasconcelos me ligou, ele tinha visto o meu trabalho no cinema. A Elizabeth também. Depois que a gente acertou tudo, surgiu a sinopse e eu adorei a história, é emocionante. O meu personagem é um cara que de certa maneira pertence a um universo que eu conheço muito bem. Fiz cinema a minha vida inteira.

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Como você definiria o personagem?

O Bola é muito bem-humorado, um cara totalmente de bem com a vida. Ele tem essa energia o tempo todo. Na hora de falar sério, ele fala, mas ele tem esse lugar de fazer piada, de brincar. Ele também é um grande amigo do Alain. E para a minha sorte, eu e o João já trabalhamos juntos em uma série, então já tínhamos essa afinidade cênica e na vida pessoal também. E o Bola talvez seja um dos únicos que tenha liberdade de chegar e falar umas verdades ao Alain, de fazer umas piadas com ele.

O seu personagem vai ter algum caso amoroso?

Acho que o Bola vai pegar geral (risos). Ele é apaixonado pela Mariane, personagem da Kéfera. É engraçado que o filme que o Pedro viu e me chamou, eu fiz com a Kéfera, e chama Gosto Se Discute. E também dublei com ela o Operação Big Hero, da Disney. Foi muito engraçado porque, ela já era a Kéfera, aquele sucesso todo na internet. E aí quando eu a conheci, ela veio, me abraçou e falou: ‘Aí moço, eu era muito sua fã no Zapping Zone’.

Foto: Globo/César Alves

Você tem seu trabalho reconhecido pelo público infanto-juvenil, também forte no humor, como está sendo trazer isso para a novela?

O meu personagem me permite isso. Ele acaba sendo o contraponto do Alain. O texto já vem com várias indicações de humor, mas tanto o Pedro quanto a Beth me deixaram livres para improvisar alguma coisa.

A novela trata de vidas passadas. Você acredita em espiritismo, vida após a morte?

Eu acredito em tudo. Eu não sei o que vai acontecer depois, a certeza que a gente tem é que vai até ali. Mas depois a gente tem várias provas disso. Antigamente, eu falava que era católico, mas comecei a estudar várias religiões, hoje não tenho uma religião. Eu acredito em Deus. E acho que Deus é um para cada pessoa, mas se você for estudar a essência das religiões, todas terminam no mesmo lugar. Então, acho que muitas coisas que a gente vê, vivencia, e possam parecer inexplicáveis, tenham uma explicação no espiritismo. Como você vai explicar um garoto de três que toca super bem bateria, é fora do comum. Então, eu acho que a gente vem com chip aí de outras vidas.

Com a mulher, a também atriz e comediante Micheli Machado. Foto: Cristina Piratininga Jatoba

Você continua fazendo seus espetáculos de stand up porque o seu nome é muito conhecido nesse meio do humor, né?

Eu dei uma parada agora em shows fixos. E sobre esse movimento de stand up, eu me me sinto um pouco responsável, não digo pelo surgimento, porque lá atrás tem o Zé Vasconcellos, Jô Soares, Chico Anysio. Mas de fato no início dos anos 2000, começou um grupo aqui no Rio, o Comédia em Pé, e em São Paulo, o Clube da Comédia Stand-Up. Nessa época a casa Beverly Hills era minha e da minha mulher, a Michele Machado. E a gente lançou o Clube da Comédia. Eu parei agora com os espetáculo porque preferi me dedicar totalmente à novela.

A carreira de ator não é fácil. Você passou por perrengues até chegar aqui?

Eu acho que quando você escolhe ser ator, isso já é uma máxima. Hoje a gente vive um momento único, eu falo dos negros em modo geral no Brasil. Talvez graça às redes sociais, a gente começou a mexer em feridas que pareciam estar cicatrizadas, mas não, que incomodam. Existe um racismo velado no Brasil desde sempre, e hoje se fala muito nisso. As pessoas, inclusive começaram a perceber que falando certas coisas, acabavam ofendendo, e começaram a ter uma consciência. Há uns nove anos, eu fiz um espetáculo autobiográfico chamado AfroBege. Nessa montagem eu falava muito de ser negro e tal, então, você imagina... Eu venho da periferia, meu pai é pedreiro, minha mãe é dona de casa. Eu tive uma base familiar muito forte. Meus irmãos, um é engenheiro, outro é instrutor de ferramentaria. E quando eu escolhi ser ator, lá, com 12 anos, era um desafio grande. Porque ser ator, negro, da periferia... E eu falava que não queria ser duro.

Como apresentador do Zapping Zone. Foto: Reprodução YouTube

Você chegou a trabalhar com outras coisas?

Eu sabia que eu queria ser ator, mas me formei no Senai em Mecânica Geral, cheguei a estagiar, fiz Eletrônica no colegial técnico. Mas eu acho que tive sorte também por começar a viver da minha arte muito cedo. Falo isso porque conheço amigos, atores, talentosíssimos, que passam uns perrengues. O meu primeiro trabalho na verdade foi aos 14 anos em um longa, chamado Boleiros. E três anos depois entrei na Malhação. E até hoje estou vivendo de arte, não tenho o que reclamar. E mesmo quando eu não estou contratado, faço os meus projetos pessoais. Saí da Malhação e fiquei 10 anos no Disney Channel. Acho que depois do Jairzinho, só teve eu de apresentador negro infanto-juvenil. Foi um peso que eu me orgulho de ter carregado. E continuei fazendo muito cinema. Mas por incrível que pareça, Espelho da Vida é a primeira novela que eu estou fazendo.

As pessoas ainda lembram muito de você do Zapping Zone?

Lembram muito, e é engraçado. Fiquei lá de 2001 a 2011. Então, as pessoas que curtiam, hoje são adultos, profissionais. Às vezes estou no balcão do aeroporto, chega um cara enorme, com voz grossa e diz: 'Posso falar uma coisa?'. E eu digo: 'Pois não, senhor?'. E logo ele fala: 'Não me chama de senhor, que eu era seu fã'. Uma vez eu lembro que estava fazendo um espetáculo de humor e quando terminou, chegou um cara com uma barba enorme e disse: 'Pô, cara, você fez parte da minha infância'. Eu falei: 'Vai para ao inferno, que sua infância, nada. Quanto anos você tem?'. E ele disse, 19. Tive que admitir: 'Fiz parte, sim, da sua infância'...



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