Maurício Destri, o Camilo: Mais leve e “vivo” em Orgulho e Paixão

Ator ressalta fase fortalecida na carreira após experiência densa em série


  • 20 de junho de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Redação

Desde a sua estreia na TV, em Cordel Encantado, em 2011, Maurício Destri passeia em papeis de mocinho, como o que vive atualmente em Orgulho e Paixão, o Camilo. Mas, nesse trabalho, ele diz se sentir mais confortável e “vivo”.

“Estou tendo a chance de revisitar o lugar que comecei, mas com mais experiência. Não tenho tanta insegurança como antes, nem aquela coisa de querer fazer tudo certo, e mostrar trabalho”, ressalta.

Tudo isso se deve muito ao seu papel anterior, como o transgressor Leon, da série Os Dias Eram Assim. “Foi o momento que entendi coisas, passei por situações pessoais onde renasci”, revela ele, que iniciou a carreira no teatro, e já encenou montagens como O Santo e a Porca, A Vida de Galileu e O Despertar da Primavera.

Nos próximos capítulos da trama das 6, seu personagem vai se reconciliar com a mãe, Julieta (Gabriela Duarte). 

 

Camilo (Maurício Destri). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Como está sendo viver o Camilo?

É um personagem desafiador por estar dentro desse arquétipo do mocinho, mas está sempre muito vivo. Tem uma brincadeira de corpo que vem um pouco do último trabalho que fiz. Saí de Os Dias Eram Assim, e um mês depois já estava me preparando para essa novela.

O seu personagem em Os Dias Eram Assim repercutiu muito bem, não é?

Foi um trabalho que me fez enxergar a vida de outra forma. Eu passei por momentos delicados na minha vida pessoal e Os Dias Eram Assim marcou uma trajetória muito potente de renascimento. E aí veio o Camilo, de Orgulho e Paixão, que tem uma semelhança com o primeiro personagem que fiz (em Cordel Encantado). Então, estou tendo a chance de revisitar o lugar que comecei, mas com mais experiência porque me sinto mais leve agora, mais confortável, mais presente, mais vivo. Não tenho tanta insegurança como antes. Estou relaxado, confiante, sobretudo com esses parceiros de cena. O Thiago (Lacerda) é extremamente generoso, tenho uma relação forte com ele. Ele fez meu pai em Cordel Encantado, depois fiz ele mais jovem em A Lei do Amor, agora faço o melhor amigo dele. A vida é uma troca. Você dá para o universo, ele te devolve, e estando conectados, a vida vai nos dando esses presentes, essas pessoas que você precisa entender e passar por elas para evoluir e aprender coisas com elas. O Thiago é extremamente atento ao outro, ao sentimento do outro e isso é muito legal.

Diferente do personagem dele que é mais turrão, o seu personagem já vem mais quebrado, mais sensível...

Cada um é uma escada para o outro. O personagem dele é fogo, o meu é água, embora exista uma dialética nisso. O Camilo se vê muito no Darcy, assim como o Darcy se enxerga muito no Camilo. Como o Camilo não tem pai, ele acaba vendo no amigo uma espécie de figura paterna. Camilo é fruto de um relacionamento invasivo, nasceu de forma violenta, como a mãe é quase um pai, ele transfere esse sentimento para o Darcy, por estar sempre ao lado dele. Eles estudaram na mesma faculdade, e o Darcy virou uma referência para ele. O Camilo é um grande assimilador, pega com facilidade as coisas que são boas, se joga e não está preocupado com o que vai acontecer. Ele quer viver, ser tocado e sentir emoções, chorar, sofrer por amor, sair correndo e gritar, é um personagem muito legal.

Foto: Globo/João Cotta

E o amor dele pela Jane (Pâmela Tomé), é uma história muito bonita, né?

Ele se apaixona pela Jane e vai em busca desse amor, mas tem uma mãe que não quer que essa relação vá adiante. Mas ele se apaixona por essa mulher e vive esse dilema, devido a ser herdeiro de uma família que não deseja o casamento dele com qualquer uma. Ele tenta sair a qualquer custo dessa prisão.

Seu personagem é baseado num personagem que tem no filme Orgulho e Preconceito?

Sim, ele é baseado no Charles Bingley. mas o Marcos Bernstein (autor da novela) readaptou a história. São quase 140 capítulos que a história seria contada em três se seguisse o original, então ele triturou e tirou camadas bem interessantes.

Você falou que o Leon, de Os Dias Eram Assim, foi quase um divisor na carreira. Explica um pouco mais isso...

 

Sabe o resultado quando tudo está dando certo, e a vida vem e completa com uma coisa mais interessante? Os Dias Eram Assim marcou essa trajetória porque foi o momento que entendi coisas, passei por coisas pessoais onde renasci. Era um personagem muito vivo, transgressor, trabalhava na livraria e fazia performances noturnas. Tive uma preparação corporal grande em que abri espaços de uma consciência corporal que eu não tinha percebido. Como aqui em Orgulho e Paixão foi muito rápido, eu ainda tinha reflexos do outro personagem. Engraçado que comecei esse trabalho querendo ainda ter um pé nessa transgressão mesmo não sendo essa a pegada deste novo personagem. Essa obra então tem um reflexo inconsciente desse cara mais leve. Ele quebra o quadril, tem a flexibilidade que veio do último personagem. Os personagens me dão caminhos, e aprendo com eles.

Jane (Pâmela Tomé) e Camilo (Maurício Destri). Foto: Globo/João Miguel Júnior
 

O Leon acabou sendo referência também para outros personagens, como o de Jesuíta Barbosa faz em Onde Nascem Os Fortes, que é um rapaz que faz shows na noite contra a vontade do pai...

Acho que a graça do ator é exatamente levantar questões de assuntos delicados que precisam ser falados, e para mim poder falar sobre isso e estar inserido nesse lugar é muito gratificante. Vivemos numa sociedade hipócrita com muito preconceito. Às vezes, um senhorzinho que me via como príncipe e bom moço em outras novelas, vai me ver fazendo um personagem homossexual e perceber que aquilo ali é possível. Tudo bem se você não é, mas existem pessoas que são, ‘Por favor respeita’, é o que pedimos. Passei por situação assim, de amigos caretas e preconceituosos, que depois que assistiram à supersérie e viram o clipe (Maurício e Jesuíta Barbosa interpretaram um casal no videoclipe da música Flutua, cantada por Liniker e Johnny Hooker), disseram: ‘Cara, te vendo nessa situação, vejo que é possível’. Vejo o filho do pai do interior que não tem muito conhecimento e sofre porque o filho é assim, e acaba se identificando. É legal para mim enquanto ator poder acionar um lugar que é tão importante para a sociedade. Me sinto feliz de falar sobre isso, e com pessoas tão legais. E o Jesuíta está fazendo um gande trabalho parecido, mas num outro lugar e com a particularidade dele.

Leon apagou um pouco a imagem do Maurício Destri mocinho, príncipe. Você acha que deu um “tapa” naqueles que criticaram atuações suas anteriormente?

Eu não sei se dei um tapa, mas me entreguei tanto e acreditei tanto que era possível... E de novo voltando a este personagem, o Camilo, ele me deu a chance de fazer o mocinho novamente, mas trazendo coisas que ficaram no meu corpo daquele cara que interpretei anteriormente, e de alguma forma sai um pouco desse príncipe, desse estigma da beleza, do galã. Se eu não fizesse o Leon (Os Dias Eram Assim), faria o Camilo de outra forma. O Leon me libertou, me deixou mais consciente, mais potente, principalmente por levantar coisas tão importantes hoje.  No Brasil, cerca de 2 a 3 travestis são mortos por hora. Somos o pais que mais mata transexuais, e de alguma forma poder falar sobre isso e a pessoa entender isso, me deixa muito feliz.”

Depois das críticas que você teve em I Love Paraisópolis, ficou mais fortalecido?

Muito. Em I Love Paraisópolis eu entendi o que houve. Eu demorei um pouco a entender o que era a televisão e como ela funcionava. Carlinhos Araújo e Chico Accioli (diretores) foram duas pessoas extremamente importantes na minha vida. Carlinhos me falava uma coisa muito legal: ‘Você está dentro de um quadrado e precisa compor este quadrado’. E demorei a entender isso. Fui fazer direção de fotografia para entender ainda mais, e não entendia ainda. Quando fui fazer A Lei do Amor, aconteceram situações em que eu conseguia me infiltrar naquele quadrado de forma mais presente, e no meio de uma cena a ficha caiu. Preciso só estar presente e aberto para que a coisa aconteça aqui nesse exato momento. A TV é rápida, e você precisa correr porque são 45 minutos no ar todos os dias, e precisamos estar muito atentos. Quando fiz A Lei do Amor, passei a me respeitar mais, me sentia mais livre, e passei a atuar de forma mais sutil, sem cobrança de acertar, e arrasar em todas as cenas.



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