Fernanda Montenegro! “É arcaico, mas não deixo de ler um livro para ver o que dizem de mim ou do mundo na internet"


  • 16 de novembro de 2017
Foto: Globo/João Miguel Júnior


Por Redação

Salve, salve, Fernanda Montenegro! A maior de nossas atrizes é um exemplo não só nas artes, mas também pela forma em que se posiciona, com convicção, sobre os mais diversos assuntos. De preconceito ao cerceamento à cultura; do “fim” do teatro que conheceu; do cabelo branco da personagem, a mística Mercedes, de Outro Lado do Paraíso, ao pouco uso das novas tecnologias.

“Tenho Facebook, mas não uso muito. Não cheguei ainda na internet... Não deixo de ler um livro para ficar vendo o que estão dizendo de mim ou do mundo. Gosto de pegar um jornal, ler. Isso é muito arcaico hoje em dia!”, admite.

Modesta, a atriz não gosta de títulos como “diva” ou “dama” das artes cênicas, apesar de estar no mais alto degrau da dramaturgia brasileira. E, mesmo com 70 anos de carreira, já tendo vencido o Emmy Internacional, em 2013, pela atuação na série Doce Mãe, e concorrido ao Oscar de Melhor Atriz, em 1999, pelo filme Central do Brasil, diz que, a cada nova estreia, tem “frio na barriga”.

Walcyr Carrasco disse que era um grande sonho ter você numa novela dele. O que está achando dessa parceria em O Outro Lado do Paraíso?

Em primeiro lugar, agradeci a ele de confiar uma personagem tão difícil. É uma personagem difícil, também não sei se eu vou corresponder ao que ele imagina que eu possa fazer do papel. Isso aí entra figurino, cabelo, jogo com o cabelo...

"Tem alguma vantagem na velhice, voltei a ter cabelo natural como era em criança... Mas ainda não me acostumei com essas madeixas brancas."

Você fez alguma preparação especial para o papel, engordar ou emagrecer?

Não. Eu sou magra por natureza. Aliás, eu estou até gorda, porque eu já fui mais magra na vida 10 quilos. Aí você imagina como eu era... (risos)

Já se acostumou com o novo visual, cabelo branco?

Essas madeixas são minhas mesmo. Não me acostumei ainda... Foram muitos anos pintando, mas acho confortável. Sabe, aceitar o cabelo branco é repousante, porque pintar toda a semana é um horror. E sempre uma hora a tinta não pega muito bem na raiz. Tem alguma vantagem na velhice, voltei a ter cabelo natural como era em criança.

"Até os 40 é suportável. Mas aceitar que duas senhorinhas de oitenta anos possam ter um caso e ainda trocar um ligeiro beijo na boca, isso foi um escândalo maluco, inexplicável, assustador..."

Em A Força do Querer, a Gloria Perez trouxe um papel de uma transexual, que foi muito bem recebida pelo público. E a senhora interpretou uma lésbica em Babilônia e houve muita critica. Como avalia isso?

Eu acho que eles aceitam no jovem. Mas aceitar que duas senhorinhas de oitenta e tantos anos possam ter um caso e ainda trocar um ligeiro beijo na boca, isso foi um escândalo maluco, inexplicável, assustador. Porque a gente pensa que o mundo caminha, não, há o preconceito, vamos deixar na mocidade, até os 40 ainda é suportável. Depois dessa idade, pelo amor de Deus, dar uma beijo na boca, mesmo que o casal esteja junto há 70 anos, não me faça esse desafio...

Estamos vendo alguns falsos moralismos, teve a questão do cerceamento da exposição e a senhora até levantou a bandeira contra isso...

É o seguinte, misturam impropriedade com liberdade de expressão. Como já existe no mundo inteiro uma conceituação em torno de uma impropriedade, mas isso não pode ser por uma vida inteira. Há um desserviço, na verdade, a serviço de um poder político, estranhamente poderoso. Isso está tendo uma amplidão assustadora, um mundo absolutamente reacionário, no que só vale o seu conceito. Um conceito que, por acaso, lhe traga alguma alternância, no fundo, no fundo, deverá ser morto.

"O careta tem todo o direito de ser careta, pensar o que quiser. Mas, extinguir o contrário, diante de um fato ou postura humana, isso é amedrontador."

Sente que a sociedade encaretou?

O careta tem todo o direito de ser careta, cada um tem o direito de pensar e querer o que quiser. Mas a questão de, praticamente, extinguir o contrário, diante de um fato, um fenômeno, ou de uma postura humana, isso é amedrontador.

Como é para a senhora acompanhar hoje o caminho de sucesso de seus filhos, a atriz Fernanda Torres e o diretor Cláudio Torres, na carreira artística?

Eu acho que para os pais que veem seus filhos se realizando plenamente, não tem bem maior. No meu caso, na minha casa, do meu marido comigo, não disputamos poder com os filhos, pelo menos, já que tem tanto talento, espaço para se realizar, não sinto que haja nenhuma pendenga nesse ponto. Então, para um pai, para uma mãe, cujos filhos se realizem, isso já é um tormento de metade de uma vida que não existe.

"Passo na praça que leva o nome do Fernando, e meus olhos se enchem de água, é bonita, bem cuidada. Acho que o nome dele trouxe uma espécie de carnificação, de um convívio sadio ao local."

Seu marido, Fernando Torres (1927-2008), recentemente foi homenageado com seu nome em uma praça, em Ipanema. A senhora costuma ir lá?

Eu passo lá e os olhos se enchem de água, porque é uma pracinha muito bonita, muito cuidada e eu sinto que os moradores em volta gostam da praça. Acho que o nome do Fernando trouxe uma espécie de carnificação, de um convívio sadio.

Ele ainda é muito presente na sua vida, não é?

Totalmente! São 60 anos desse negócio...

É verdade que seus netos já estão se enveredando para a área artística?

Os dois maiores querem ser cineastas. O mais velho, o Joaquim (filho da Fernanda), já está na faculdade, na PUC, estudando filosofia.. O Davi, do Cláudio, também quer ser cineasta, mas está terminando os oito primeiros anos de preparo para a vida. Mas ele disse que quer ser cineasta e,, certamente, irá para uma faculdade, vai fazer vestibular, mas tem sempre essa ideia de chegar ao cinema.

 "O teatro como conheci desde a minha infância até 10 anos atrás, acabou. O que acontece hoje é um teatro de catacumbas, de cada um carregar a sua carroça. No momento atual, isso é de uma resistência cultural de se aplaudir de perto."

Ia ser difícil eles fugirem disso...

Isso também é interessante... Prova que, apesar do nosso trabalho nos tirar muito de casa, uma vida batalhada, foram pelo menos 25 anos mambembando pelo país todo, muitas vezes as crianças iam com a gente, outras ficavam com meus pais. Tinha sempre uma ideia de que isso, talvez, fosse um lado negativo. E, de repente, chegaram para o mesmo terreno nosso, sinal de que não erramos tanto.

Falando dessa questão do teatro mambembe, sempre viajando, como a senhora vê atualmente o teatro?

Hoje o teatro acabou, o teatro como eu conheci desde a minha infância até 10 anos atrás. Não há mais companhias, autores altamente representativos, feitos na sua dimensão também de elenco. Mas eu digo que a resistência é, talvez, mais gloriosa do que o período de glórias. O que acontece hoje é um teatro de catacumbas. Se é necessário para sobreviver um monólogo, faz-se um monólogo, se é necessário um diálogo, faz-se um diálogo, se só permite que a gente fique um mês no teatro, a gente fica. Essa luta, assim, de cada um carregar a sua carroça, até onde puder ir com o seu mambembe, no momento atual, acho isso uma coisa extremamente sadia e resistente, de uma resistência cultural de se aplaudir de perto. 



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