Claudia Di Moura: “Zefa não é da família, é utensílio da casa”

Destaque na trama, atriz avalia situação complexa da doméstica e virada dos Athayde


  • 25 de agosto de 2018
Foto: Globo/Paulo Belote


Por Redação

Se os baianos já conheciam o talento de Claudia Di Moura, agora o Brasil inteiro está tendo o privilégio de se emocionar com as cenas dessa atriz fantástica no papel da doméstica Zefa, de Segundo Sol. “Quando estive na Bahia tomei um susto. Em Salvador não se fala em assistir Segundo Sol, se fala em assistir Zefa, e é muito bonito isso. É a minha terra, o meu lugar. Essa personagem é um presente”, constata.

E nesta próxima semana, uma das revelações mais aguardadas da trama das 9, de que Edgar (Caco Ciocler) é filho de Zefa com Severo (Odilon Wagner), e irmão de Roberval (Fabrício Boliveira), promete ainda mais emoção, e mais show de Claudia, claro. Mas para a atriz, a personagem não se dá conta de seu verdadeiro papel naquela família "torta". “Zefa acredita que aquela família é dela, mas ela não pertence àquela família. É utensílio da casa”, avalia.

Delicie-se com a entrevista de Claudia, que fala ainda sobre a relação com as três filhas, o seu lado estilista, e o sonho de ser chamada para o teste de um papel especial em série da Globo. Se depender da nossa torcida, o personagem já é seu!

Zefa (Claudia Di Moura). Foto: Globo/João Cotta

Como tem sido o feedback da personagem?

O que tem me assustado, na verdade, é que as pessoas falam muito mal do Roberval, colocam ele no lugar do algoz, do vilão. E me entristece porque ele é uma vítima da escolha da mãe e do pai, da história do Severo e da Zefa. Então, eles vêm num acalanto com a Zefa, amam o meu personagem, claro, porque está num lugar sagrado de mãe. A Zefa é muito acolhida pelas pessoas, e eu fico meio sem entender porque ela também tem um lado perverso, ainda que seja uma perversidade reproduzida. Ela deixou o filho, doou.

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O Severo nunca assumiu o romance com a Zefa. Qual o nível de amor entre os dois?

Racismo. É isso! Ele é um homem branco, racista, que nunca teve coragem de assumir essa mulher, que em diversos momentos diz que foi o grande amor da vida dele, de infância.

Você acredita que o Severo possa se redimir sobre esse amor?

Eu espero que não. Agora com essa tomada de consciência, com as informações do Roberval e as informações do Edgar, que vai trazer nessa nova fase da novela, eu acho que Zefa vai repensar, ver essa nódoa que ele deixou na vida dela.

Agora a trama traz uma reviravolta, da descoberta de que Edgar é irmão de Roberval e filho de Zefa. Como fica a relação desse trio?

Zefa tem agora do Roberval, que é o filho assumido, só a revolta e o poço de mágoa que esse menino virou. E o filho de armário, que é o Edgar, traz para ela um pouco de carinho, mas muita indiferença. E a gente quer ver essa reviravolta.

Uma outra virada é que a família Athayde agora vai perder a mansão, comprada pelo Roberval. Qual a expectativa para esse momento, muda algo?

Eu não espero nada dessa família. Porque essa família é expert em puxar o tapete das expectativas do público.

A Zefa valoriza a união familiar. Você acha que o amor ainda pode unir essa família?

A ideia que Zefa tem de família é muito complexa. Zefa acredita que aquela família é dela, mas ela não pertence àquela família. Ela pertence à casa. Ela é um utensílio da casa. É uma mulher que nunca sentou na mesa. Nós fizemos uma cena em que a Manu (Luisa Arraes) exige que ela sente no sofá e foi um ritual. O diretor abriu disse: ‘É ritualístico essa mulher sentar nesse sofá’. Ela quer juntar, mas sei que ela tem essa força e potência. Ela acredita nisso e vai conseguir. Acho que a redenção vem dela, da união dessa força. Ela acredita naquela família que não acredita nela.

Foto: Reprodução Instagram

As ‘Zefas do Brasil’ tem abordado você nas ruas?

Elas são ótimas! São mulheres desaforadas, de fibra. Mulheres que trabalham, labutam. Tenho recebido o carinho dessas 'Zefas', dessas mães, avós, guerreiras. A gestação de Zefa é na cabeça. Ela acredita que aquela família é dela, mas não é uterina.

Em conversa com o elenco foi dito que a oligarquia baiana é realmente racista. Como baiana, você percebe esse quadro?

O racismo está aí em qualquer lugar, e lá existe também. Se olharmos para traz, ainda avistamos a escravidão. Ela é muito recente.

Você já revelou que virou atriz por causa do racismo da igreja católica. Que o seu sonho era ser anjo na igreja, mas não deixava. Agora com toda a repercussão nacional do seu trabalho, como você vê esse momento do passado?

Eu vou me emocionar sempre com essa história. Eu queria muito voltar na cidade de Barro Preto, estar com essa pessoa e agradecer por essa profissão que ela me deu. Eu não sei mais falar disso sem chorar. Ela sempre me dava a poesia: ‘Não se preocupe porque no fim você vai dizer a poesia’. Na cidade, as pessoas perguntavam se eu já tinha dito a poesia e saiam correndo para me ver. As pessoas se emocionavam muito. Ali nasceu uma atriz dramática. Eu tive outros anjos que me ampararam e me trouxeram para esse lugar que estou.

A Zefa é uma mulher mais contida, e você é completamente colorida. Como administra essas duas personalidades?

Zefa é uma colcha de retalhos. Eu tenho pegado de várias mulheres que pontuaram a minha vida, mãe, avó, outros personagens, e costurei essa mulher que de incolor não tem nada. A Zefa é contida. Espero que ela 'solte a franga' lá adiante. Eu sou estilista, além de atriz. Foi o meu plano 'B' para sobreviver, porque no nosso país sobreviver de arte ainda é um sonho. Nunca estudei moda, assim como nunca estudei teatro e cinema. Eu sou autodidata em tudo o que faço. Eu me virava para me vestir, sempre fui diferente. Já vendi roupa na porta do Teatro Castro Alves.

Roberval (Fabrício Boliveira) e Zefa (Claudia Di Moura). Foto: Globo/João Cotta

Você desenha os modelos das roupas?

Eu só crio, não desenho. Não tenho nenhuma habilidade com as mãos. Como eu tive filhas, elas viraram minhas bonequinhas, modelos. Eu aprendi a ver a roupa como uma indumentária de elevar a autoestima. Sou africana pela cor do pano. É preciso mostrar a minha africanidade, estou presente, bem vestida. Eu lembro de uma citação do Chico Xavier em que ele dizia que sempre andava penteadinho e com óculos, todo bonitinho, porque não temos o direito de sairmos por aí agredindo as outras pessoas com a nossa feiura. Eu achei genial! Então, eu, sem batom, estou sem boca. Eu gosto disso, de balangandãs.

Você é muito pé no chão e já afirmou que não gosta de ser colocada em pedestal, por quê?

Eu acho que se você souber chegar, ninguém te derruba. Você só chega no lugar que é seu. A questão de ter pé no chão é uma coisa que preciso falar agora, que é a questão da representatividade. Eu não quero ser porta-voz do preto. Acho que todos nós pretos temos que ter voz. Estou cansada de falar de representatividade porque está na hora de acabar. Não queremos mais ser representados, queremos fazer. A voz do preto é potente. Só precisamos de escuta, que podemos trocar também por oportunidade. Não adianta chegar nesse pedestal e servir de porta-voz. Eu não quero! Eu quero ficar aqui embaixo na pipoca.

Você disse que é filha de uma mãe amorosa. Essa característica também está em você como mãe

Ah, eu sou mais filha do que mãe. Minhas filhas são maravilhosas, eu que sou a 'porra louca' da família. Adotei a minha primeira filha com 15 anos de idade. Meu pai era delegado, então na cidade tudo podia, estamos falando de uma outra época. Hoje, Deise, de 38 anos, é Doutora em Geografia, dá aula em uma universidade de Vitória da Conquista. Depois veio Yasmim, 28 anos, que é uma filha adotiva também, que faz Nutrição e tem uma empresa fitness. E Vitória, de 23, que é minha filha biológica, está terminando Psicologia e é bicampeã baiana de fisiculturismo. Se não fossem essas meninas, não sei onde eu estaria e se estaria aqui dando esta entrevista. Porque elas são realmente o meu Norte, Sul, Leste e Oeste. Somos amigas, cúmplices. Às vezes, elas são minhas mães, viro complemente filha delas. Criei dizendo: ‘Não julgue e não minta’. Está tudo certo lá em casa.

Foto: Globo/Paulo Belote

Como é ser referência para tantos jovens atores?

Eu não sei. Cheguei nesse lugar com muita humildade e verdade. Sempre soube escolher o que fazer, nunca tive medo de dizer não. Lá em Salvador, as pessoas me conhecem como uma atriz empreendedora. Eu componho o meu trabalho, a minha partitura e convido a minha equipe. Sempre foi assim, talvez por medo de povoar os seus sonhos, os sonhos do outro. Claro que já fiz trabalhos com outros diretores. Mas, naturalmente, se você me vir envolvida em um espetáculo de teatro, com certeza é o meu trabalho pessoal, intransponível. Aí eu me jogo inteira e tenho a liberdade de escolher com quem quero trabalhar.

Você tem um sonho profissional na TV

Eu quero muito fazer, e vou brigar para isso. Vou fazer o teste porque já soube que vai acontecer, e é uma minissérie chamada Defeito de Cor. E eu vou fazer essa mulher. Já estudo esse livro, da Ana Maria Gonçalves, há muito tempo, é a minha pesquisa diária. Soube que a Globo já está com os direitos, e eu queria muito ter a oportunidade de fazer esse teste.



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