Caike Luna: "O termo humorista é meio ingrato, não há dramista"

Intérprete da Baby Bobolete diz que sempre teve sensibilidade apurada para o patético


  • 12 de fevereiro de 2018
Foto: Reprodução Instagram


Por Claudia Dias

Dono de um humor que ele mesmo classifica como “popular”, Caike Luna vem trilhando uma bonita trajetória na TV. Com personagens como o Cleiton - o personal de Lady Kate (Katiuscia Canoro), no antigo Zorra Total, hoje apenas Zorra - , ele foi ganhando espaço. Em 2017, chegou a integrar o elenco de Rock Story, como o jornalista fofoqueiro Cassiano, e o do Multishow. No canal fechado, ele é conhecido por tipos como a Baby Bobolete e o Gagoberto, entre outros, no programa Treme Treme.

Mas, nem de longe, ele, que também é roteirista, concorda com a máxima de que a realidade anda mais engraçada que os comediantes. Para Caike, as coisas são um pouco mais sombrias do que se imagina. "A vida real é muito séria. Concordo que estamos cercados de tipos engraçados, mas rimos deles, porque eles são patéticos", afirma ele. O patético, aliás, foi o que acabou levando Caike ao humor. Ele revela que sempre teve uma sensibilidade apurada para essas coisas.

A Baby Bobolete. Foto: Reprodução Instagram

"Sempre fui tímido e acho que isso me deu um senso de observação tão intenso que foi deturpando o real sentido das coisas. Acho engraçado quando alguém tropeça e cai, realmente desejo que não se machuque, mas o descontrole de um corpo caindo é risível."

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Descoberta do humor

Sempre tive uma sensibilidade apurada para o patético das coisas. Sempre vi as coisas sob uma ótica diferente das outras pessoas. Sempre fui muito tímido e acho que isso me deu um senso de observação tão intenso que foi deturpando o real sentido das coisas. Acho engraçado quando alguém tropeça e cai, eu realmente desejo que ela não se machuque, mas o descontrole de um corpo caindo é muito risível. Tenho ataque de riso quando ouço uma frase de efeito mal falada, quando a pessoa diz mas não acredita no que está dizendo. E sempre tive resposta muito rápida a esses lapsos da realidade, então eu já era o palhaço desde criança. Imitava o tio bravo dando bronca quando ele dava bronca; fingia que caia no chão quando alguém me esbarrava; fazia comentários da maquiagem do defunto quando ia em velórios.

Foto: Reprodução Instagram

Veia cômica no teatro

Descobri na primeira peça que fiz. Era uma comédia chamada 'Quatro num Quarto', do Valentin Katayev. Me deram um personagem sem fala, chamado Sacha para fazer. Era um pré-adolescente que acompanhava a tia até o quarto em que ela e o marido iam dividir com um casal. Eu não entendia nada de teatro mas já sabia intuitivamente criar um personagem. O subtexto que criei para ele, sem ninguém saber, é que ele era do sítio e nunca tinha visto um quarto tão bonito. Ele achava tão bonito que tinha vergonha do quarto, como se o quarto fosse uma pessoa. A atriz que fazia minha tia abria a porta e entrava comigo atrás. Ela fechava a porta e ele ficava encostado ali, admirado e com vergonha ao mesmo tempo. A plateia riu e aplaudiu muito. Tive que ficar fazendo a cara alguns minutos. Meus colegas, mais experientes, vieram me parabenizar no final dizendo que aquilo era ser aplaudido em cena aberta. Hoje eu sei que isso se chama 'roubar' a cena, e é antiético.

 

"Sempre que escrevo e atuo no humor, penso em quem vai assistir. Junto com a equipe de redação que coordeno para os programas que escrevo, insisto que a criança deve rir junto com a avó."

Humor inteligente

Não considero o humor que faço inteligente. Não dentro dos padrões do que é considerado inteligente. Sempre que escrevo e atuo no humor, penso em quem vai assistir. Diria que pratico o humor simples e popular. É pensado para todo o mundo entender, se identificar e rir. Quando estou criando os textos, junto com a equipe de redação que coordeno para os programas que escrevo, insisto que a criança deve rir junto com a avó.

Como o Cleiton, do antigo Zorra Total. Foto: Reprodução Instagram

Referências

Minhas maiores referências estão no povo, nas figuras que conheci, nos tios bonachões, nas mulheres da minha família, nas caricaturas que encontro por aí. Cresci vendo Chico Anysio, Trapalhões, TV Pirata, Sai de Baixo, Praça é Nossa. Todos me serviram para apurar os sentidos e definir para o meu trabalho o que é bom e funcional e também o que é ruim no que diz respeito a fazer rir. Sobretudo, eu creio no riso espontâneo. É meu objetivo e ele só existe quando o que fazemos é real. Eu quero fazer com quem me assiste, o que o Tiririca faz comigo: esquecer se o que estou vendo é bom ou ruim e apenas rir, porque é de verdade.

"Eu quero fazer com quem me assiste, o que o Tiririca faz comigo: esquecer se o que estou vendo é bom ou ruim e apenas rir, porque é de verdade."

Vida real nada engraçada

Não acredito que a vida real seja engraçada. Acho que ela está mais para drama que comédia. Concordo que estejamos cercados de tipos engraçados, mas nem sempre eles tem como objetivo fazer rir. Rimos deles porque são patéticos aos nossos olhos, como somos aos olhos de alguém. Acho a vida real muito séria, por isso o humor sempre será tão necessário. Mas, há os comediantes da vida real, que se fazem engraçados dentro do contexto que vivem para sobreviverem. Esses não são propriamente concorrentes, quando o que fazemos é ficção. É pensado, elaborado, escrito, decorado e visto. Eu só me ouço engraçado com uma peruca, uma voz diferente e uma plateia interessada. Ser engraçado na vida real é para profissionais e eu não ofereço concorrência.

Como o Cassiano Junior, de Rocky Story. Foto: Reprodução Instagram

Fazer rir X Fazer chorar

Acho que tanto uma coisa como outra podem ser difíceis, depende da verdade de quem está atuando. Claro que o riso é mais salafrário, mais golpista, mais traiçoeiro. Além de ser mais bem quisto. Ninguém está a fim de chorar, ninguém quer sair inchado do teatro ou do cinema. As pessoas preferem sair comentando uma piada ou repetindo um bordão. Para as lágrimas é necessária uma paramentação maior, um clima, uma luz, um bom ator, ou pelo menos um bom texto. Para fazer rir precisamos de menos recurso, mas mais talento. Um ator engraçado nos faz rir com sua respiração, um olhar cúmplice, uma pausa. Eu prefiro chorar admirando bons comediantes. Tenho vontade de chorar quando encontro alguém que me faz rir.

"Sou muito reservado e sisudo quando ando por aí, em função da timidez, o que pode ser interpretado como mau humor."

Na folga...

Eu atualmente estou sem horário de folga. Quando não estou gravando estou escrevendo e isso tem me deixado bastante estressado. Mas não sou mal-humorado, acordo falando com meus animais como se estivéssemos numa novela. Eles dormem no quarto comigo e me seguem pela casa o dia inteiro, e parecem se divertir com o contexto que crio para cada um. Tenho dois gatos pretos, Taturanha e Neguinho do Saraguai, e Dr. Douglas, um chiuahua branco, que por ser o único branco da família é tratado como a Cinderela por um dos meus alter egos, a Enfermeira Brioco. Eu levei essa personagem para a televisão na segunda temporada do Xilindró, é uma velha solteirona que mora em Copacabana, cercada de bichos, e que se fosse mãe trataria os filhos sem igualdade nenhuma. Sobretudo, sou muito reservado e sisudo quando ando por aí, em função da timidez, o que pode ser interpretado como mau humor.

Interpretação

Na verdade, o termo humorista é um pouco ingrato. Faz com que seus intérpretes tenham a obrigação de fazer humor. Não existe o termo 'dramista' ou 'tragedista'. Também acho errado dizer ator dramático ou ator cômico. Eu sou ator. Crio personagens, sejam ele trágicos ou cômicos. Claro que hoje, a indústria do humor e o dinheiro que ela gera, permite com que o cara engraçado do colégio vire o cara engraçado do stand-up, e não vejo problema nisso. Assim como não vejo problema em modelos começarem como mocinhas insossas na novelas. A televisão e o cinema tem um compromisso, principalmente, com o ibope e a bilheteria, então é natural que usem de todas as armas para cumprirem suas metas. Mas quando o compromisso for com a arte, com a profissão, e formos falar de um artista profissional, é natural que entendamos que ele queira trabalhar a sua versatilidade. Eu já fiz Maria Clara Machado, Shakespeare, Arrabal e adoro fazer a Baby Bobolete. E tudo o que fiz, foi a convite de alguém que acreditava no meu trabalho e talento. Se o convite for bom, eu quero sim. Mas não planejo o que vou fazer amanhã, gosto de espreitar o que o destino me reserva.


 



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