Guilherme Hamacek relembra estreia em Malhação: “Escola que me ajudou a pensar no futuro como ator”

Destaque na temporada Sonhos com o seu humor refinado, o ator cita aprendizados e encontros na trama


23 de fevereiro de 2021

Foto: Globo/João Cotta

Por Luciana Marques

*A entrevista completa está disponível no vídeo, abaixo.

Há 7 anos, Guilherme Hamacek estava prestes a se formar em Jornalismo, quando ouviu que tinha passado no teste para Malhação: Sonhos, de Rosane Svartman e Paulo Halm, com direção geral de Luiz Henrique Rios. Além de se mudar de Minas Gerais, onde vive desde os 10 meses, para o Rio, ele tinha o desafio de estrear na TV. E como todo o “mineirinho”, ele chegou de mansinho, mas logo viu o personagem João - um garoto nerd e introspectivo que adorava games – crescer e virar quase um protagonista. E foi nesse momento que, com o seu humor refinado, Gui protagonizou cenas hilárias, com segurança de veterano. “O João é um personagem riquíssimo. E é doido ver como ele começa a novela e como se desenvolve. Ele faz uma megacurva e termina muito diferente”, avalia ele, que agora tem a oportunidade de rever a trama na TV Globo.

Durante o nosso bate-papo, o ator, de 27 anos, admite algumas semelhanças com o personagem, como o humor ácido e a ironia. “Eu perco o amigo, mas não a piada”, conta. Ao falar de amizade, ele lembra que Rafael Vitti, que viveu o Pedro e também fazia sua estreia na televisão, se tornou um dos seus melhores amigos. Desde então, Guilherme diz ter realizado alguns dos seus sonhos, fez espetáculos de sucesso como Zero De Conduta, filmes como Gostosas, lindas e sexies, além de novelas como Espelho da Vida e Amor de Mãe, esta última que volta ao ar no dia 1º de março. Na trama das 9, ele interpreta Benjamin, filho do ambientalista Davi (Vladimir Brichta). “Nesse ano de 2020 foi o que preencheu o meu coração”, diz ele, que aproveita a reprise de Malhação para produzir duas músicas que escreveu na época da trama.

João (Guilherme Hamacek). Foto: Globo/Alex Carvalho

Você estava acabando a faculdade de jornalismo, quando recebeu o convite para fazer Malhação, que muitos chamam de “celeiro de atores”. Malhação é realmente uma escola para atores. E no meu caso foi uma das melhores fases desse ponto de vista de aprendizado. Eu sempre quis ser ator, mas como era um lugar desconhecido para mim, eu era lá de Minas, não sabia como entrar, eu estava estudando jornalismo. Aí rolou o teste, o Fabinho Zambroni me ligou e me chamou para trabalhar com o que eu sempre quis. Estava dentro dos meus planos, apesar da faculdade. Eu meio que larguei, mas eu não sinto que eu abandonei, eu estava lá crescendo, enquanto não chegasse a hora.

O que significou para você fazer um personagem com tantas curvas como o João, ainda mais na sua estreia na TV? Foi muito legal. Primeiro, porque o João, de uma certa forma, o humor dele, acho que o jeito que o personagem precisava ter, já existe em mim. E eu acho que isso foi um uma potência e eu fui embora nela. Falei, eu vou jogar dentro de mim, já que é isso que eles precisam. E aí, literalmente, eu consegui me reconhecer como ator, achar os meus confortos, buscar novos desafios. Então foi uma escola, não só no presente da Malhação, como uma escola que me ajudou a pensar muito no futuro. Eu dizia, agora eu preciso desenvolver essas áreas da minha atuação, porque no lugar da ironia, do improviso, do jogo, eu sinto que eu funciono, mas às vezes as cenas mais técnicas eu tenho dificuldade. Era um ambiente muito propício para poder experimentar porque todo o mundo era muito gente boa, a equipe, a direção. Foi muito bonito o processo, como um todo. E eu acho que não haveria hora melhor para eu começar a minha carreira ali com todas aquelas pessoas que até hoje eu tenho uma conexão incrível.

Foto: Globo/João Cotta

Você disse que se enxergou muito no João, em qual linha, da timidez, de ser nerd, apaixonado por games? O João fala tudo o que ele pensa, e com a consciência disso, ele sacaneia, às vezes. E eu também acho que sou meio assim, eu perco o amigo, mas não perco a piada. Eu acho que nesse lugar a gente conversa muito, eu amo jogos, mas na atuação isso não influenciava. Apesar de me reconhecer ali, uma pessoa que prefere ficar em casa, ter seus amigos mais íntimos. Mas eu digo mais nesse lugar da ironia, da acidez. E é legal que o João me proporcionou chorar como ator, também sentir dores, apesar de ele ser engraçado, ele sentia muitas dores. E eu sinto que eu sou um pouco esse cara que é triste, pra mim, mas para os outros, quer ser engraçado, passar uma energia positiva.

Ele é dramático... A cena em que ele fica em posição de bebê, com o dedo na boca, acho que quando a mãe dele, a Dandara (Emanuelle Araújo), fala que está grávida, é sensacional... Ele tinha muito esses momentos de infantilidade extrema. Essas dores eram muito doidas. Ele tinha um complexo de Édipo com a Dandara, essa paixão pela mãe. Uma coisa que eu não tive a oportunidade de experimentar, foi muito legal fazer isso. E a dor do amor, da pessoa que sabe que é interessante, mas de alguma forma, não está encaixada em padrões que as pessoas enxergam como os padrões românticos. Esse tipo de dor foi muito legal, acho que eu me identifiquei muito. O João é um personagem riquíssimo. Nossa, foi muito legal fazer, os autores, a Rosane (Svartman) e o Paulo (Halm), eles foram tão generosos para com o personagem e para comigo também, consequentemente. É isso, o João faz uma megacurva e quanto termina Malhação está muito diferente.

Dandara (Emanuelle Araújo) e o filho, João (Guilherme Hamacek). Foto: Globo/Ellen Soares

E o interessante é que a arte, o encontro dele com a arte, transforma ainda mais ele, né? E demorou a valorizar, a perceber, o que eu acho que é um movimento brasileiro também. Isso de demorar a valorizar a arte, mas consumir sem nem perceber que é arte. Você só se dá conta quando não tem, opa, o que era aquilo que eu tinha e não percebia. Acho que o João demorou a perceber a importância e a potência da arte, que dá para mudar o mundo.

Depois tem as paixões, que também o transformam ainda mais... Tem as paixões que amadurecem ele, que fazem ele também satisfazer o desejo do outro. No começo, ele é muito egoísta. Depois, percebe que o amor é para todos. Vamos namorar, então eu vou me dispor a sentir essas dores. E a relação com o pai, quando ele chega, incentiva o João a buscar o seu caminho, é muito simbólico isso, acho que a presença paterna é importante nesse sentido. A materna também, obviamente, mas Malhação colocou cada um em um lugar de amadurecimento. Muitos processos esse personagem.

E como foi a parceria com o Rafael Vitti, o João? Acho que essas cenas eram as mais engraçadas, com o Eriberto Leão também. Mas com o Rafa, a gente se conheceu no teste, aí já colou, as coisas aconteceram. Eu tinha minha casa que a Globo disponibiliza para atores de outros estados, e o Rafa morava muito longe do Projac. E aí a gente pode bater texto, treinar, e a gente desenvolveu uma intimidade muito boa para poder contracenar. Foi muito legal, muito divertido, até hoje o Rafa é um dos meus melhores amigos mais presentes.

Foto: Globo/João Cotta

Malhação tem como tema sonhos. Desde a sua estreia ali na TV, já realizou muitos? Tem muito pela frente ainda, metas a serem batidas. Mas é muito legal poder vivenciar o nosso sonho e, ao mesmo tempo, botar os pés no chão, porque às vezes a gente romantiza a palavra sonho. O sonho não é essa delícia, esse deleite da vida. Ele é tudo, o desprazer e o prazer. E a minha carreira, eu sinto que é nesse lugar também. Eu ganhei vários presentes incríveis durante esses 7 anos, oportunidades e, ao mesmo tempo, dificuldades, como ficar longe da família. Mudar sua raiz de lugar é muito difícil e um pouco doloroso pra mim fazer isso. E esses desafios, com os prazeres, estão me mantendo no meu centro. Eu ainda quero chegar bem longe, de um ponto de vista artístico mesmo, de poder pegar personagens cada vez mais complexos, que alcancem mais lugares, para poder ter uma voz minha também, de pessoa pública, que opina sobre as coisas, e ser respeitado por isso. Porque eu acho que a qualidade do nosso trabalho tem a ver com quem a gente é. Acho que a gente precisa aliar essas duas coisas. Eu tô muito feliz, porque apareceram trabalhos recentes como Amor de Mãe, foi o último presente que eu pude gravar, foi mágico. Nesse ano de 2020 foi o que preencheu o meu coração, fora a faculdade, eu tô fazendo faculdade na CAL, eu vou me formar. É outra parada que me deixou muito feliz.

Mudou muito o teu olhar sobre a profissão desde o inicio pra cá ou você sempre foi mais centrado, nunca foi muito nessa linha da glamourização? Para ser sincero, eu acho que quando eu era mais novo eu pensava que depois que eu fizesse Malhação, a minha vida ia estar feita. Eu tinha essa inocência. Aí passaram-se alguns anos para eu entender que não é assim. Então mudou um lugar que era meio utópico, e não é, eu vendo, vivenciando isso, é impossível. Até as pessoas que têm todas as oportunidades passam por grandes dificuldades. Então, acho que não é materializar, tipo, eu quero estar daqui a dois anos em Hollywood. Se eu pensar assim, eu vou enlouquecer. Mas eu quero estar em Hollywood, alguma hora, pode ser com 60 anos. E muita coisa pode se fazer antes disso, como falar um inglês perfeito, estudar em outros países, outras escolas, aprender novos jeitos de atuar. Então, acho que mudou, antes eu era um ator mais confortável, hoje eu sou um ator que tem consciência de buscar novos conhecimentos. E tudo acaba agregando para o ator, se você está ligado na vida.

Angelo Paes Leme, sem saudosismo: “Com a idade, tenho feito mais papéis de densidade dramática”

Bruna Hamú e a felicidade de rever sua Bianca, de Malhação: “Tinha o mesmo sonho que eu de ser atriz”