Claudia Di Moura é destaque como a poderosa Martha em trama: “Mensagem aos que se sentem sub-representados”

Atriz festeja papel potente em Cara e Coragem, fala de maternidade e da expectativa com o novo governo


23 de dezembro de 2022

Foto: Ricardo Konka

Por Betina Azoubel

A baiana Claudia Di Moura, de 57 anos, tem mais de três décadas e meia de importantes trabalhos no teatro e no cinema. Mas o reconhecimento nacional chegou somente em 2018 por conta de sua potente atuação como a Zefa em Segundo Sol. Mas como costuma dizer, as portas da televisão se abriram no momento em que tinha “maturidade necessária e zero deslumbre”. Desde então, presenteia o público com o seu talento. Atualmente, Claudia brilha como a rica e poderosa Martha, de Cara e Coragem.

“Eu queria muito esse alcance, essa persona capaz de ocupar todos os espaços sem reservas, não apenas por um anseio pessoal, mas como uma mensagem para todos aqueles que se sentem sub-representados na mídia”, reflete.

Na trama de Cláudia Souto, a personagem de Di Moura também é uma fortaleza enquanto mãe de Leonardo e Clarice, interpretados por Ícaro Silva e Taís Araújo. Nada muito diferente da vida real, em que além de tudo, é uma mãe bastante orgulhosa de Vitória, Iasmim e Dayse.

“Diante delas eu me sinto mais forte”, conta a atriz, que também está no elenco da quarta temporada de Sob Pressão como a Dona Maria.

Martha (Cara e Coragem). Foto: Globo/João Cotta

O que levará de mais especial desse trabalho e ao viver a Martha, essa mulher tão potente? Martha fica comigo como um lembrete de que papéis de poder e autonomia são plenamente possíveis para meu corpo, minha pele e minha idade na TV aberta e em qualquer outro modelo de audiovisual. Foi uma personagem que exigiu de mim novas nuances e significou um grande desafio, porém nada muito diferente do que eu vinha desejando.

A poderosa família Gusmão é formada por pessoas pretas, lindas, bem-sucedidas. Como é fazer parte desse núcleo, junto da Taís e do Ícaro, e ver autores como a Claudia Souto cada vez mais trazendo essa representatividade no audiovisual? A experiência de contracenar com Taís e Ícaro foi engrandecedora por si só, pelos vínculos que estreitamos, pelo aprendizado decorrente desse convívio maravilhoso. Taís é um ícone, uma desbravadora, empreendedora, protagonista na arte e na vida. Ícaro tem um fôlego e uma energia comparáveis apenas ao seu imenso talento. Estar ao lado deles, compartilhando emoções dentro e fora das cenas é uma riqueza que não se precifica. E eu celebro a iniciativa de Cláudia Souto de sustentar esse núcleo tão representativo do qual foi uma imensa alegria fazer parte. Que venham cada vez mais famílias pretas poderosas e complexas no nosso audiovisual, pois essa é nossa batalha cotidiana, e não podemos descansar.

Você torce para a Martha encontrar um novo amor, o que podemos esperar de novidades nessa reta final dela? A formação de casais em final de novela é essa realização do público, que muitas vezes quer ver na tela a concretização da esperança no amor, e acredito que em Cara e Coragem não será diferente... Quem sabe não existe uma nova promessa para Martha Gusmão? Só assistindo para saber.

A Martha, como a maioria das mães, sofre e ama aqueles filhos imensamente, mesmo que um deles, como no caso o Leonardo, a tenha decepcionado algumas vezes. Você entende as escolhas da personagem em sua jornada como mãe? O Leonardo é um ser humano que transmutou experiências que para ele foram traumáticas em um comportamento reprovável, influenciado por pessoas cruéis e imorais. Ele foi vítima de sua própria obsessão por poder e da sua sensação de rejeição e injustiça, da qual Regina espertamente se aproveitou. E Martha lutou o quanto pôde para não ter que enxergar a fraqueza de caráter do filho, pois é isso que muitas mães fazem, por um excesso de complacência ou para evitar a asfixia da culpa. Tudo isso faz parte da natureza humana. Se vemos ou não, depende apenas de para onde apontamos o olhar.

Foto: Jorge Groos

Você tem três filhas. Que tipo de mãe você é, ainda mais tendo criado mulheres numa sociedade ainda tão machista? Acima de tudo, eu sou uma mãe orgulhosa. Minhas filhas são minhas amigas, conselheiras, fontes de inspiração. E eu fico feliz de poder incentivá-las a serem quem são, lutando contra estruturas que constantemente nos querem fazer desacreditar de nós mesmas e das nossas potências. Diante delas eu me sinto mais forte e procuro devolver para elas uma parte dessa força que elas me dão.

Você já era sucesso no teatro, na Bahia, fez muitos filmes importantes, mas nacionalmente cativou o grande público em Segundo Sol, como a Zefa, depois dos 50 anos. Tudo aconteceu no tempo que tinha que ser ou demorouAs portas da televisão se abriram para uma Cláudia di Moura que tinha a maturidade necessária para passar por elas sem medo e sem deslumbramento. Aquele foi o momento exato, na melhor configuração possível.

Qual a sua expectativa em relação ao futuro do país e também na sua área, a cultura, com a chegada do novo governo? Tenho certeza de que este é o fim de um projeto de demonização e sucateamento da cultura e de todas as áreas do saber humano, como as artes e o pensamento científico. Ter nas instâncias federais uma voz que ressoa nossos ideais traz uma grande dose de alívio. Mas ainda há muito em que se trabalhar, as grandes mudanças não acontecem por mágica ou por decreto. Estamos juntos nessa luta pela verdade e pela democracia.