Lícia Manzo sobre final de A Vida da Gente: “Rodrigo com Ana era paixão, com Manu foi uma construção amorosa”

Autora revela que foi xingada nas redes, mas defende o desfecho de sua história e as novas relações familiares


11 de maio de 2021

Foto: Globo

Por Luciana Marques

Poucos autores contemporâneos de novelas escrevem com tanta verdade e sensibilidade sobre relações familiares como Lícia Manzo. Tanto que os apaixonados por teledramaturgia, esperam ansiosos a estreia dela no horário nobre, com Um Lugar ao Sol, prevista para ir ao ar ainda esse ano na faixa das 9. Mas enquanto isso não acontece, o público tem o privilégio de rever a ótima A Vida da Gente, de 2011, que foi a primeira novela de Lícia como autora principal na Globo.

Além de emocionar o público, a trama causou também um alvoroço nas redes sociais sobre qual das protagonistas terminaria com Rodrigo (Rafael Cardoso). Um grupo criou o time Ana (Fernanda Vasconcellos) e outro, o time Manuela (Marjorie Estiano). Lícia lembra que foi xingada na internet com o fim escolhido, Rodrigo e Manu. Mas ela garante que não mexeu na sinopse. “Com a Ana, acho que era uma temperatura passional. E com a Manuela, acho que foi uma construção amorosa. E eu tendo a achar que o amor nesse sentido prevalece”.

A autoria Lícia Manzo. Foto: Globo

Você mexeu na sinopse? Não mexi nada. Se alguém pegar a sinopse nos arquivos da Globo verá que a novela termina exatamente como eu havia previsto na sinopse. Inclusive com a cena final, da caminha deles. É uma tendência que eu tenho, eu acho, nos trabalhos que eu fiz. É engraçado, é como se eu tivesse indo para algum lugar, então eu sei que eu vou para esse destino, aí eu coloco na mala tudo aquilo. Eu sei que eu vou para esse lugar.

Então o desfecho dos três protagonistas já era uma decisão sua desde início? O que eu acho bonito na trama desses três personagens é o tempo, é aquilo que é dito no final da novela, que você não mergulha duas vezes no mesmo rio, não é o mesmo rio, você não é o mesmo. E, às vezes, a gente custa para aprender isso. Embora Ana e Rodrigo tenham ficado com a história interrompida lá atrás, eu acho que a beleza é essa, tem aquela frase do Belchior, que o passado é uma roupa que não serve mais. E quantos apegos a gente tem a coisas que foram vividas e você tenta reeditar, mas o tempo se interpõe e você é outro, a roupa é outra, o momento é outro. E eu acho que até pela maturidade do personagem Rodrigo, quando experimenta o que viveu com a Ana, acho que era uma temperatura muito passional, muito da paixão. E com a Manuela, eu acho que foi uma construção amorosa, cotidiana, nesse sentido mais aprofundado. Eu tendo a achar que o amor nesse sentido prevalece. A paixão tem a sua força, mas eu acho que ela é mais transitória. No amor, os tijolos que você coloca numa relação amorosa, acho que eles são mais perenes. Então, sim, eu já sabia para onde ia.

Como você lidou com todo o alvoroço nas redes sociais, torcidas? Eu fui muito xingada na internet. Teve uma pessoa que escreveu, Lícia Manzo, que merda você fez (risos). Eu acho que são pessoas ainda muito românticas ou apegadas a um modelo romântico. Eu acho que a novela tinha essa provocação também, ela era romântica, desfazendo o casal romântico. E mostrando que o amor dos dois seguiu de outra forma. O mais bonito pra mim é aquela imagem final... E até porque a novela fala de novas relações familiares também, que esses quatro personagens reencontrassem o equilíbrio, fossem tolerantes, amorosos, uns com os outros, mesmo tendo passado por tudo o que passaram. Então a novela tinha essa provocação, de que não precisa ser inimigo das pessoas, que as pessoas amam e desamam, se separam, se recompõem...