Gustavo Vaz: “É uma necessidade da alma traduzir o que sinto em linguagens distintas”

Premiado no teatro, ator fala de sucessos no audiovisual, de seu primeiro romance e de peça autobiográfica


06 de abril de 2021

Foto: Leandro Lima

Por Luciana Marques

Cria do teatro e premiadíssimo na área, Gustavo Vaz tem feito um caminho bonito não só nos palcos, mas agora também no audiovisual. Está no elenco do elogiado longa Depois a Louca Sou Eu, de Julia Rezende, como Gilberto, par romântico de Dani (Débora Falabella), e tem visto crescer as mensagens vindas do exterior sobre a sua atuação como o violento Augusto, na série Coisa Mais Linda, da Netflix. Agora, ele se dedica a terminar o primeiro livro, o romance Como Não Morrer de Uma Só Vez e depois se debruçará na peça autobiográfica A Voz de Iara. “É uma necessidade da alma passear por lugares diferentes, traduzir o que eu sinto em linguagens distintas”, conta.

Alguns dos mais recentes trabalhos do ator no audiovisual têm lhe trazido reflexões profundas. Em Depois a Louca Sou Eu, ele conta ter aprendido a “aceitar com mais leveza as imperfeições”. Já na série Coisa Mais Linda, ele sente a importância de se tratar do tema violência contra a mulher. “Vejo que as discussões levantadas pela trama têm reverberado e gerado debates importantes dentro de grupos feministas e mesmo entre grupos de encontro sobre a masculinidade tóxica”, fala. Fundador da ExCompanhia de Teatro, Gustavo prepara para o ano que vem comemorações para os 10 anos do grupo, apesar do momento difícil e do desmonte da cultura. “O Teatro nunca morrerá e fascistas nunca passarão”.

O que mais cativou você no Gilberto, desde que você recebeu o convite para o filme da Julia? Perceber que ele era um personagem falho e por isso humano. Na tentativa de se mostrar forte, no início do filme, Gilberto acaba deixando transparecer o quão vulnerável é. E isso é importante para o desenrolar da sua trajetória na trama. Nas tentativas de se encontrar e às vezes de se esconder, ele, ao lado da Dani, constrói espaço para um discussão importante no filme, que é a possibilidade e importância do amor mesmo em tempos de angústia. Depois a Louca Sou Eu trata da ansiedade e da depressão de maneira bem-humorada mas sempre com muito cuidado, e acho que meu personagem pode contribuir nesse sentido.

O encontro da Dani com o Gilberto a deixa de certa forma mais confortável por ele também não esconder os seus medos, angústias, falar sobre... Acredita que os homens hoje já estão mais abertos para falar e para escutar, não acham que tudo é frescura da mulher, ou falta muito ainda para terem essa sensibilidade e também para se abrirem mais? Não há saída para o diálogo que não passe, em algum lugar, pela vulnerabilidade. Nós, homens, fomos criados para sermos máquinas de guerra, para sermos melhores que os outros, mas hoje vivemos no mundo da informação. Não há mais desculpas. Tudo está a nossa frente, disponível, e a possibilidade de mudança se faz real e urgente. Além disso, nós temos grande responsabilidade uns com os outros nesse processo. Quanto mais falarmos, entre nós, sobre os medos e dificuldades que carregamos, mais cedo conseguiremos nos abrir para o mundo de uma maneira sensível.

Em cena com Débora Falabella no longa Depois a Louca Sou Eu. Foto: Stella Carvalho

O que você, Gustavo, mais aprendeu com o Gilberto e também da relação dele com a Dani, e acha que vai levar para sempre na sua vida? A aceitar, com mais leveza, o fato de sermos imperfeitos.

Em Depois a Louca Sou Eu, você soma mais um trabalho de sucesso com a Débora Falabella, com quem você até já teve uma relação na vida real. Como é ser parceiro e trocar em cena com a Débora? Tenho tido a sorte de encontrar grandes parceiros e parceiras de cena nos meus dezessete anos de carreira, e ela é certamente uma dessas, onde, quando em cena, a atuação se dá com honestidade, cuidado e profissionalismo.

A série Coisa Mais Linda continua sendo bem comentada. Qual é o feedback que você tem recebido da trama e também do seu personagem, o violento Augusto? Tenho recebido sempre retornos muito positivos, inclusive do público estrangeiro, por se tratar de um trabalho da Netflix, com alcance internacional. Sou sempre tratado com muito carinho e respeito, apesar do personagem terrível que interpreto. Vejo que as discussões levantadas pela trama têm reverberado e gerado debates importantes dentro de grupos feministas e mesmo entre grupos de encontro sobre a masculinidade tóxica. Fazer parte de um projeto que ultrapassa a barreira da ficção, afetando diretamente a vida real, é sempre muito recompensador.

Assim como Depois a Louca Sou Eu, em Coisa Mais Linda, as protagonistas são mulheres, com sua força, angústias, neuroses, em épocas diferentes. Fazer esses trabalhos, de certa forma, faz você refletir mais sobre a mulher, sobre relações, aprender e até fazer autocrítica de atitudes machistas incrustadas? Sem dúvida. Especialmente em Coisa Mais Linda, fui obrigado a mergulhar fundo no meu machismo e nos hábitos inconscientes que, de alguma forma, perpetuavam alguma postura tóxica. Estou em constante processo de aprendizado e de atenção, certamente ainda não sou o homem que gostaria de ser, mas ter a consciência disso me parece um passo importante no processo de vulnerabilidade e de evolução sensível sobre o qual falamos há pouco.

O ator na pele de Augusto, na série Coisa Mais Linda. Foto: Divulgação

Você trabalha também no espetáculo autobiográfico A Voz de Iara. Fale um pouco do que o público pode esperar dessa montagem, de que forma você quer levar a sua história aos palcos? Honestidade, acho que é a palavra que me vem à cabeça. Falar sobre a minha mãe, Iara, falecida quando eu tinha apenas 2 anos e meio, é também falar sobre mim e sobre a minha família. Preciso, mais uma vez, estar vulnerável e comprometido com a entrega para acessar os lugares que esse trabalho pede. Estou terminando de escrever meu primeiro livro, e, assim que entregá-lo, irei me debruçar novamente sobre o projeto. Ele existe há mais de 4 anos, e, de lá pra cá, muitas ideias já foram abandonadas ou modificadas. Ainda não sei como ele será efetivamente, mas sinto que, ao falar da minha aldeia, talvez consiga me comunicar profundamente com os outros, e isso, já seria incrível de poder alcançar.

O seu primeiro romance Como Não Morrer de Uma Só Vez deve ser lançado no segundo semestre. O que esperar desse trabalho? Um artista que está começando a navegar nas águas da literatura e que está com uma vontade enorme de experimentar e de se arriscar nessa nova linguagem. Tenho me sentido livre e muito feliz diante da folha em branco. Penso que a escrita é uma das maneiras mais verticais de exposição, e isso, por si só, já é muito forte. Estou muito animado com o livro e espero que, até o fim do ano, as pessoas possam entrar em contato com esse processo maravilhoso e desafiador que eu tenho vivido.

Você é cria do teatro, tem feito muito cinema, série, escreve. Qual a importância do ator hoje também se produzir, criar, é essencial, em vez de ficar esperando o mercado se movimentar? Acho que cada um trilha o próprio caminho e descobre no percurso como se sentir mais confortável com a profissão. Eu, desde sempre, precisei acessar mais de uma linguagem para me expressar completamente. Há lugares que apenas a escrita consegue me satisfazer; noutros, só o teatro ou o cinema. É uma necessidade da alma passear por lugares diferentes, traduzir o que eu sinto em linguagens distintas. Isso acaba me abrindo possibilidades de enriquecimento profissional muito profundas, que acabo sempre carregando para cada set, palco ou texto no qual me envolvo.  

O ator com o parceiro de cena Armando Babaioff na premiada peça Tom na Fazenda. Foto: Guto Garrote

Ano que vem você comemora os 10 anos da ExCompanhia de Teatro. Acha que, como sempre, o teatro sobreviverá a essa crise tão devastadora, não só com a pandemia, como do desmonte da cultura no país? Das poucas certezas que temos vida, duas, certamente, são essas: o Teatro nunca morrerá e fascistas nunca passarão.