Nelson Freitas foca no cinema e em fase na Austrália: “Mundo está pequeno pra gente não sonhar grande”

Ator planeja mudança pós-pandemia e aprimoramento do inglês para trabalhos no exterior


05 de fevereiro de 2021

Foto: Alle Vidal

Por Luciana Marques

Com mais de 35 anos de uma bem sucedida carreira nas artes, Nelson Freitas não tem medo se reinventar. E é exatamente o que tem feito desde que saiu da Globo, após 19 anos de emissora, em 2020. Um dos trabalhos recentes, o curta-metragem I’m Sorry Honey, que aborda a violência doméstica, concorreu a quatro prêmios no My Rode Reel, da Austrália, maior competição de curtas do mundo. Aliás, é naquele país que vive Gabriela, filha mais velha do ator, e local aonde ele escolheu passar uma temporada pós-pandemia. “Estou com quase 60 anos e me proporcionar uma aventura dessas é um privilégio. Vou aprimorar o inglês, procurar um agente e tentar castings por lá e por outros países também. O mundo está pequeno demais pra gente não sonhar grande, não acham?”, diz.

Após anos de Zorra, Nelson tornou-se um dos comediantes mais conhecidos do país. Mas nos últimos tempos, ele tem feito muito papel na linha dramática também, sua origem no início da carreira. “Eu fingi ser comediante esse tempo todo”, diverte-se ele, que também está no elenco do longa de ação Tração, ao lado de Marcos Pasquim e André Ramiro, e aguarda o lançamento de Nina, de Samuel Machado. Para o ator, a TV aberta ainda tem vida longa, mas quem criar boas histórias e de qualidade para o audiovisual se dará bem. “O conteúdo vai ser cada vez mais precioso”, constata ele. Atualmente, Nelson também se aventura no YouTube, cantando sucessos antigos e relembrando intérpretes.

Você vem colhendo frutos do curta I´m Sorry Honey. Por que você apostou tanto nesse trabalho, o que mais instigou você? Há anos, venho vislumbrando a possibilidade de viver fora do país. Minha filha mais velha, Gabriela, foi para a Austrália há 16 anos e durante esse tempo, quase todos os anos, a gente passa um ou dois meses por lá. A Austrália é uma espécie de Brasil que deu certo... Um país tropical, cercado de praias lindas por todos os lados, com um povo hospitaleiro e alegre, como o nosso, mas a diferença é que lá se respeitam as leis e a ordem. Quem conhece, sabe o quanto é um lugar bacana de se viver. Outra curiosidade é que é mais barato de se filmar lá do que em outros países. Sempre está acontecendo alguma produção internacional em Melbourne, Sydney, Brisbane... Meu genro é ator também, o Phil Herington, e conversamos sempre sobre a possibilidade de montarmos um espetáculo juntos e tentar alguma coisa por lá, mas, para isso, eu preciso estar na Austrália. E é no que estamos focando, minha mulher e eu, para esse ano ainda. Esse concurso, o My Røde Reel é australiano, patrocinado por uma marca de microfones, e termos aplicado nosso vídeo falado em inglês foi além de um desafio, uma forma de estar mais perto desse ideal. Tenho um projeto super legal de apresentar um programa sobre a Austrália e suas curiosidades e já estou levantando essa produção e em busca de parceiros e marcas para a empreitada.

Foto: Alle Vidal

O tema violência doméstica é algo que infelizmente está cada vez mais presente em muitas famílias, e nesta época de pandemia aumentou. Houve muitos casos de feminicídio. Em suas pesquisas para o trabalho, o que mais surpreendeu você sobre o assunto? Se parássemos para dar um pouco mais de atenção a esse tema, veríamos o quanto é assustador o índice de casos de agressões, violência doméstica, de abuso moral, psicológico, sexual, mas infelizmente diante de tantas outras demandas, tão fundamentais nesse labirinto de absurdos desse país, somado à dificuldade que as pessoas que sofrem com isso, tem em se expor, registrar queixa, fica tudo num limbo de informações e ações que poderiam contribuir para diminuir essa causa que considero uma enfermidade, uma doença social ... É triste demais. Tenho contato com algumas instituições, como o Fala Mulher, que apoia não só as mulheres como a toda a família e que constantemente precisam de ajuda financeira para manter os programas. Portanto, faço um apelo a quem estiver lendo essa matéria para que, se o assunto for de alguma forma tocante, que procurem através da internet qualquer instituição e percebem o que podemos fazer para mitigar essa realidade dolorida e traumática que, só quem vive, sabe o quanto é pesado.

Para compor o personagem, você ouviu pessoas que viveram algo parecido, se inspirou em alguém? Procurei entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que não tem a noção do mal que ela causa não só para o foco da sua agressão, mas para si mesmo. Depois procurei alguns institutos, como o Maria da Penha, e o Fala Mulher, para perceber a dimensão do problema e fiquei estarrecido. Durante a pandemia, por exemplo, houve um aumento de 80%! Um absurdo! Trazer essa discussão sobre esse assunto é urgente e necessário. É importante poder discutir abertamente e tentar diminuir o problema.

Você já contou em entrevistas do drama da sua infância, de ter sido afastado do seu pai, de ter tido uma educação muito rígida da sua mãe. Você chegou a apanhar, tem algum trauma que leva até hoje, acha que educação pode ser só com o diálogo? A minha infância foi caótica, pai alcóolatra e mãe apanhava, mas era uma prerrogativa educacional da época, que eu nunca achei legal. Não pode ser legal resolver tudo na porrada. Foram anos de análise para lidar com isso tudo e conseguir chegar aqui inteiro, porque as sequelas são inevitáveis. Mas a vida vai nos ensinando a transformar as dores em força e tenho aquela frase do Sartre “não importa o que fizeram comigo, mas o que eu faço com o que fizeram comigo”, como lema de vida.

Você sempre teve uma identificação forte com a Globo, por ter feito inúmeros trabalhos de sucesso lá. E a gente sabe que a emissora passa por reformulação, há poucos dias mesmo anunciaram que no fim do ano o Fausto Silva deixa a casa. Como você recebeu a notícia de que não teria o contrato renovado? Eu já estava ciente das novas diretrizes da empresa, e sabia que não íamos renovar, mas como disse, tudo tem seu lado bom. Já tinha também esse plano de passar um tempo maior na Austrália, e estar sem contrato num momento como esse, é ótimo... Estamos esperando para ver como ficam os tramites do país com a pandemia, e assim que der, vamos realizar esse sonho.

Foto: Alle Vidal

E como foi se reinventar. Imagino que, por você ser um “multiartista”, seja mais fácil. Como tem vivido tudo isso? O segredo é se reinventar o tempo todo... A máxima “não está fácil para ninguém” nunca esteve tão em voga. Para os artistas e técnicos do teatro e do audiovisual, nem se fala. E de fato, mesmo com vacina, esse ano de 2021 está deveras comprometido, pois as pessoas ainda não vão estar confortáveis para frequentar teatro, shows, eventos... Então, a gente vai se virando como pode. Tenho feito algumas campanhas publicitárias, lives para empresas, criei o meu canal no YouTube, mas ainda não ousei fazer teatro no digital, pois como disse o Antônio Fagundes: pode ser qualquer coisa, menos teatro (risos). O teatro precisa da vivência do presencial, é preciso sentir o pulso da plateia, esse é o combustível do nosso ofício e isso faz toda a diferença.

E essa fase de cinema, tem curtido muito navegar nessa área do audiovisual, as séries também estão muito fortes, né? A tendência é essa. Claro que a TV aberta ainda vai ter relevância no Brasil ainda por um tempo, mas sabemos que como diz a canção: nada será como antes... Por outro lado, o conteúdo vai ser cada vez mais precioso, e quem conseguir produzir bem e com qualidade vai estar com vantagem no mercado. Tenho dedicado meu tempo e energia para isso e tem sido bacanérrimo. Projeto é o que não falta, falta é tempo para fazer tudo que projeto (risos).

O seu lado do humor é muito forte, mas agora você vem fazendo drama também, tem o seu personagem no curta. Você gostaria de ter mais desafios até em novelas com papéis mais voltados ao drama? Sim, como já tenho feito. Depois de sair do Zorra, fiz duas novelas na Globo, Tempo de Amar e O Tempo Não Para, quatro filmes e duas séries e todos, papeis dramáticos, e me sinto confortável, pois é basicamente a minha origem.

E sobre o canal no youtube, como está sendo essa experiência de mostrar mais a sua veia de cantor, cantar sucessos antigos, relembrar os intérpretes? Está sendo divertido e prazeroso. Minha natureza sempre foi de motivar as pessoas, trazer alegria e leveza por onde passo. O YouTube é um terreno, por mim, ainda pouco explorado, e estou começando a entender a ferramenta, o algoritmo e principalmente, como posso levar para o público, que gosta do que eu faço, algum tipo de conteúdo que agrade. O trabalho é constante.