As conquistas de Rayana Diniz: Filme com Maísa e participação em nova trama das 9

Atriz cita batalhas para conseguir espaço e sonha se tornar referência para jovens negras do subúrbio


20 de abril de 2021

Foto: Ernane Pinho

Por Luciana Marques

Moradora do bairro de Paciência, zona oeste do Rio, a atriz Rayana Diniz deseja um dia poder ser referência para muitas meninas moradoras do subúrbio, principalmente, as atrizes negras. “Eu gostaria que me vissem ocupando espaços e que isso servisse de combustível para insistirem nos seus sonhos, assim como muitas outras artistas serviram e continuam servindo como um combustível pra mim”, fala.

Aos 26 anos, essa jovem atriz vem buscando seu espaço com foco e determinação, mesmo com as adversidades frequentes e os inúmeros “nãos”. Cria do teatro, Rayana está no elenco do longa Pai em Dobro, da Netflix, em que vive uma das amigas da protagonista vivida por Maísa. Além disso, fará uma participação em Um Lugar ao Sol, próxima novela das 9.

O nosso bate-papo está imperdível, até porque Rayana conta que, assim como a Betina do longa, ela é “pra frente, mente aberta, autêntica, divertida e comunicativa”.

O que mais instigou você na participação no filme Pai em Dobro? O fato de que iria trabalhar com atores que admiro e me inspiro. Quando soube que haveria essa troca eu fiquei ainda mais empolgada com a minha participação.

Rayana com Maísa em intervalo das filmagens de Pai em Dobro. Foto: Divulgação

Como você definiria a Betina e o que mais cativou você na personalidade da personagem? Definiria como autêntica. Apesar dela ficar na correria pra cuidar das finanças do avô, pra cuidar do irmão... Ela continua mantendo a sua personalidade em tudo que faz. E o que mais me cativou foi o seu jeito moderno, a forma como ela consegue bancar a adulta em alguns momentos e ser muito brincalhona em outros. Ah, o estilo dela também é ótimo! A vontade era de trazer pra casa todos os figurinos (risos).

Há semelhança entre você e a Betina? Com certeza! Betina é pra frente, mente aberta, autêntica, divertida, comunicativa. Acho que até os nossos signos são iguais! Sou aquariana (risos).

Como foi a troca e a parceria com a Maísa? Incrível de todas as formas! Maísa é gentil, humilde e de uma educação invejável. Nossa relação foi amigável do início ao fim. E além da amizade que construímos no set, eu também aprendi muito com ela, artisticamente falando. Ela é muito jovem, mas carrega uma carga profissional  grande.

Qual a mensagem que você acha que o filme passa para as pessoas, principalmente para as crianças e adolescentes, público alvo do longa? Acho que a mensagem que fica é que é possível amar e construir uma família independente de laços sanguíneos, e que devemos confiar mais nas nossas intuições emocionais. O filme mostra que às vezes ser destemido, confiar no seu coração e estar disponível para novas emoções pode ser também um bom caminho. Eu acho muito bacana passar essa mensagem para a juventude e também para a geração anterior, que geralmente costuma se fechar pra essas novas possibilidades. E eu tenho certeza que muitas pessoas se identificaram com a história.

Você começou a sua carreira no teatro. Quando você viu que o seu caminho profissional era nas artes? Quando me vi infeliz, quando precisei ficar longe da arte por um período de 6 meses. Após a minha formatura na Martins Penna eu me vi perdida, sem saber o que fazer... A única coisa que eu sabia é que precisava de dinheiro, então comecei a trabalhar numa loja de manutenção de celular e a minha diária era de quase 12h de trabalho pra receber apenas 600 reais (na época isso era o suficiente pra mim). Vi alguns amigos seguindo nos palcos, outros em tv... E eu me senti travada. Entrei numa tristeza profunda e tudo que eu havia construído estava sendo deixado de lado. Foi então que eu decidi juntar dinheiro, pedir demissão e embarcar de cabeça na minha profissão. A partir desse momento eu nunca mais parei e nunca mais consegui me imaginar fazendo qualquer outra coisa a não ser isso. Pra mim as únicas opções são: “Vai dar certo e vai dar certo! 

Foto: Ernane Pinho

A gente sabe que a carreira de ator no Brasil não é nada fácil. Como tem sido a sua batalha, desde então, por espaço, muitos perrengues, “nãos”, vontade de desistir ou tem que persistir sempre? Já recebi muitos "nãos", inclusive para fazer testes. Hoje eu consigo uma abertura maior para mostrar ao menos um pouco do meu trabalho, mas antes nem isso eu conseguia. E é impossível falar das dificuldades na profissão sem mencionar o fato de eu ser uma atriz preta, pois tudo está interligado e seria muita utopia da minha parte não considerar essa questão. Então, apesar de saber que muitos dos "nãos" que eu recebi tinham relação com os meus traços, eu continuei e continuo insistindo. É óbvio que já pensei em desistir. Se existe um artista que não pensou em desistir é porque ainda não embarcou verdadeiramente na profissão ou porque ocupa um espaço privilegiado para conseguir oportunidades (acesso aos melhores cursos, dinheiro para bancar o material que precisa sempre ser renovado, estar no perfil que costuma agradar mais, ter uma base financeira, família que apoia...) Com tudo isso fica difícil pensar em desistir, concorda? Eu, por exemplo, tenho minha família que sempre apoiou, então, apesar de ter pensado em desistir por ter enfrentado outras dificuldades, a minha base familiar foi muito importante para eu continuar insistindo. Mas sim, apesar de pensar em desistir, continuar tentando é e sempre será a melhor opção.

Amor de Mãe foi uma trama com quase metade do elenco de atores pretos. Desde nova você tem visto essa representatividade crescer na teledramaturgia ou ainda falta muito? Comecei a ver de uns tempos pra cá. E acho que os artistas pretos que estão conquistando esses espaços têm uma grande responsabilidade nisso. Cada vez mais eu sinto que posso protagonizar uma novela das 21h graças a representatividade que estamos tendo. Ainda falta, mas estamos no caminho certo. Que tenhamos cada vez mais espaços abertos, não só na atuação, mas em todos os setores!

Você gravou uma participação em Um Lugar ao Sol, como foi essa experiência e qual o seu personagem? Foi uma experiência muito doida porque gravei nesse momento pandêmico que estamos vivendo, então tudo estava ainda mais técnico que o normal. Gravar de frente pras minhas parceiras de cena e dar de cara com um acrílico dividindo a gente foi assustador. Mas, infelizmente, é o que precisa ser feito nesse momento. Apesar dessa estranheza, eu me diverti muito na cena e com a minha personagem. Interpreto a Alê, uma jovem amiga de duas outras personagens do núcleo principal da novela e, novamente, a personagem é divertida, jovem, espontânea... Então, deu pra brincar bastante.

Qual o seu objetivo na carreira? Conseguir o máximo de estabilidade que eu puder, apesar de não acreditar que nada nessa vida seja estável, e deixar o meu legado. Eu gostaria que outras atrizes jovens, principalmente as que são da Zona Oeste, subúrbio, as atrizes negras, me vissem ocupando espaços e que isso servisse de combustível para insistirem nos seus sonhos, assim como muitas outras artistas serviram e continuam servindo como um combustível pra mim.