Rogerinho Ratatúia: “Fiz do samba meu trampolim para sorrir”

Cria da Maré, ele faz 10 anos de carreira e mostra seu ritmo irreverente em show no Rio


  • 29 de setembro de 2018
Foto: Divulgação


Por Redação

Bezerra da Silva, Moreira da Silva e Dicró fizeram escola numa linhagem de samba, quase extinta atualmente: aquele carregado de malandragem e letras irreverentes, feito como uma crônica dos “causos” do nosso cotidiano. Afinal, quando bem contada, a realidade costuma superar - em muito - a ficção. E o representante vivo - daquela turma, que segue versando em outro plano - atende pelo nome de Rogerinho Ratatúia. Autor de músicas extrovertidas como Blitz da Lei Seca, Essa maçã é banana, Piriguete idosa e Samba da UPP - elogiado pela autora Gloria Perez no Twitter -,  o sambista, de 45 anos, é cria do Complexo da Maré, comunidade no Rio conhecida pela violência e por oferecer poucas oportunidades para quem vive lá.

Órfão de pai muito cedo, teve de ajudar a mãe e os três irmãos em casa. Vendeu picolé na praia, cocada no aeroporto, alho na rua, se virou como pôde para arrumar um trocado para curtir os bailes e as rodas de samba pela vida. As dificuldades o machucaram, mas também o forjaram para que anos mais tarde a paixão pelo samba se tornasse profissão. "De onde eu vim, a gente já está saturado de tristeza. Agora a gente quer sorrir. Fiz do samba meu trampolim para poder sorrir e viver a vida mais feliz", diz Ratatúia.

Com 10 anos de carreira, ele segue gravando os próprios clipes para divulgar sua música. O mais recente, Toque Errado, foi feito na quadra da Mangueira, e narra, com humor, o que pode acontecer com marmanjo que assedia mulher comprometida. Neste sábado, 29 de setembro, às 19h, Rogerinho apresenta as músicas do CD Raiz Brasileira e passeia por clássicos do samba em show na Associação Atlética Tijuca, na Zona Norte do Rio.

Antes disso, ele bateu um papo com o ArteBlitz. E nós já viramos fã.

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Por que escolheu a cantar sambas com perfil mais irreverente? É um gênero que já fez bastante sucesso com nomes como Bezerra da Silva, Moreira da Silva, mas que não tem tido renovação. Isso auxilia ou dificulta seu trabalho?

Eu conheci o samba no início dos anos 80, através do meu falecido pai, Jorge. Ele adorava o gênero e ouvia muito Beth Carvalho, Agepê e, principalmente, Dicró... Naquela época, o samba era a voz do morro. A gente andava pela rua e ouvia o ritmo tocar em quase todas as casas da favela. Foi quando passei a gostar e a me interessar por essa linha musical. Lembro que na época tinha uma revista chamada Só Pagodes, eu comprava todos os exemplares para saber a letra e os autores das obras. Também ia muito à Praia de Copacabana assistir aos shows promovidos pela extinta Rádio Tropical FM e adorava ouvir os versos irreverentes e malandriados de Zeca Pagodinho, Deni de Lima, Dicró e Bezerra da Silva. Vivi momentos difíceis, assim como tantas outras pessoas, mas sempre preferi ver o lado bom e feliz da vida. Minhas letras traduzem isso, sempre fui bem-humorado e, através do samba, procuro expressar esse lado e tento alegrar as pessoas com minhas composições. Infelizmente, a partida de alguns nomes deixou essa lacuna e temos que dar continuidade a esse lado e fazer o povo sorrir.

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O samba, assim como a própria MPB, tem um histórico de letras machistas. O jeito de fazer samba mudou nos dias atuais? Até por você fazer uma linha mais irreverente, já se viu repensando alguma letra de música ou mesmo desistindo de compor sobre algum tema para não ser mal interpretado?

Olha, confesso que está muito complicado escrever nos dias de hoje. É difícil para um artista ter sua obra censurada ou ser taxado disso ou aquilo por conta do politicamente correto. Muitas vezes, as pessoas criticam sem ao menos escutar a música ou observar a letra com calma. O meu samba Piriguete Idosa já foi criticado por pessoas que não entenderam o contexto daquela história, mas a música não é pejorativa, pelo contrário. Eu fiz para enaltecer as mulheres de 40, 50, 60 anos, que estão esbanjando saúde, alegria e beleza, chamando muitas vezes mais atenção do que as mais jovens. É claro que o bom senso deve prevalecer sempre na hora de compor uma música, não vale ofender religiões ou cor de pele. Mas tem gente que critica até um samba que fala de amor, imagina eu que gosto de escrever umas sacanagens (risos).

 

 

Tem ideia de quantas canções já compôs? E como funciona seu processo de composição?

Eu estou completando 10 anos de carreira, ou seja, ainda sou da nova safra de sambistas e devo ter umas 20 composições. Meu processo de compor é muito engraçado pode ser num ônibus, avião, de manhã, de tarde, de noite... Ou até acordar no meio da noite, pegar o celular e armazenar uma letra que veio num sonho, isso acontece sempre comigo. Gosto mais de fazer a letra do que a melodia.

Foto: Divulgação

Em que momento da sua vida viu que precisava largar tudo e investir na música?

Eu trabalho desde cedo. Comecei aos 10 anos, sempre gostei de ter meu dinheiro, comprar minhas coisas. Com 16 anos, assinei minha carteira e trabalhei como office boy, digitador, administrativo, vendedor e comprador. Em 2008, decidi vender minha casa na favela e investir na carreira artística. O meu último emprego foi em 2010 e não estava feliz com aquela rotina, não percebia valorização por parte da chefia e optei por viver da música, que era o meu sonho. Mesmo diante de várias dificuldades do início da carreira, é o que me faz feliz. Se você tem um sonho, vai com fé e perseverança em busca desta realização. Mesmo que não consiga chegar lá, o importante é que você tentou e o maior vencedor é aquele que luta em busca dos seus objetivos

E o que você pode dizer que aprendeu em 10 anos de carreira?

Eu aprendi nesses 10 anos de carreira que o mais importante é seguir fazendo meu papel com disciplina, humildade e fé… Vou continuar compondo, produzindo e sem me preocupar tanto com o que pode acontecer no futuro. O que tiver que ser, será!
 

 



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