Maria Leite, nome da nova safra de cantoras compositoras da MPB. Ouça!

“As mulheres hoje cantam as próprias composições, rompemos barreiras”, diz


  • 22 de dezembro de 2017
Foto: Ale Catan


Por Ana Júlia

Fotos: Ale Catan

O contato de Maria Leite com a música vem desde cedo. Um dos nomes da nova safra de cantoras compositoras de MPB, ela lembra uma história que a mãe costuma contar sobre o seu nascimento. “Ela levou um radinho de pilha e, enquanto eu nascia, tocava 'Águas de Março', com a Elis Regina cantando”. A cantora gaúcha “Pimentinha”, aliás, é uma das referências de Maria. Natural de Minas e radicada, em São Paulo, ela acaba de lançar o seu segundo disco, intitulado O Bonde.

Com 13 canções autorais, o álbum foi gravado a partir de financiamento coletivo, em conjunto com a plataforma Partio. A produção foi da própria Maria, com arranjos da pianista Silvia Goes, que gravou piano e Rhodes ao lado do baixista Thiago Espírito Santo e do baterista Cuca Teixeira. “Considero O Bonde como sendo o trabalho que vai me colocar definitivamente no mercado da música. Hoje, vejo o primeiro disco, Confessional Urbano, como uma pré-produção para este”, diz.

Leia a entrevista, veja o vídeo, ouça faixas de O Bonde em todas as plataformas digitais. Surpreenda-se e deleite-se com essa voz que veio para ficar na música popular brasileira. 

"Considero O Bonde como sendo o trabalho que vai me colocar definitivamente no mercado da música. Hoje, vejo o primeiro disco, Confessional Urbano, como uma pré-produção para este”

- Por que a escolha da figura de um bonde para esse álbum?

O Bonde é a música que me leva até às pessoas, que traz as pessoas até mim, é um meio de transporte muito antigo e que ainda existe em muitos lugares do planeta fazendo este paralelo da música tradicional com a minha contemporaneidade, meu olhar mineiro observando tudo que São Paulo oferece com toda sua urbanidade. O Bonde é um meio de transporte com velocidade moderada como as canções, ele pode ir a lugares diferentes como as músicas e recebe pessoas com sentimentos simbolizando o fio condutor do trabalho que é um olhar amoroso.

- São 13 canções autorais. Sobre o que falam?

As canções do Bonde falam de aspectos cotidianos mas com poesia leve mesmo. Falo de coisas simples que acontece na vida de todos nós como decidir mudar os trilhos da sua vida, ou comprar comida, ou falar da morte, de sexo, de depressão e suicídio, da desilusão, de perder um amor, de encontrar um novo amor e até mesmo de cuidar deste amor ardente. Faço também uma declaração de amor aos pais.

Foto: Ale Catan

"Defino meu estilo como MPB com um toque jazzy misturado com meu sotaque mineiro-pop (risos)."

- Como é o seu método de criação, de onde busca as inspirações?

Qualquer situação pode me inspirar, seja minha ou uma situação alheia que observo e daí geralmente eu canto a letra já com melodia e tenho que gravar logo que percebo que é uma ideia nova. A partir disso vem o grande trabalho de colocar tudo no lugar, definir bem a melodia e encontrar o melhor caminho harmônico para acomodar a melodia e letra. 

- Como define o seu estilo?

MPB com um toque jazzy misturado com meu sotaque mineiro-pop (risos).

- Fale um pouco do seu início na música, sempre foi uma paixão?

Sinto uma identidade musical desde muito cedo na minha vida. A primeira vez que vi um piano, antes dos meus cincos anos, na casa de amigos dos meus pais, me sentei em frente às teclas e toquei "Cai Cai balão" ainda com um dedinho só, mas a música já estava ali.  Minha mãe sempre cantou tudo desde músicas das cantoras do rádio até músicas de igreja, ela é dessas mães que passam o tempo todo cantando e certamente eu já ouvia isso na barriga dela.

Foto: Ale Catan

"Fui backing vocal do Edson Cordeir por 8 anos. Ele me escolheu entre 35 meninas e isso foi definitivo para estar aqui hoje apresentando O Bonde para o mundo."

- Você foi backing vocal do Edson Cordeiro por 8 anos, quais as lembranças da época e a importância de passar por esse posto antes de seguir carreira solo?

Sim, tive essa oportunidade maravilhosa de ter sido backing vocal de Edson Cordeiro, esse cantor estupendo. Até cantar com ele, nunca tinha feito nada profissionalmente como cantora, somente tinha estudado. E ele me escolheu no meio de 35 meninas e isso foi definitivo para estar aqui hoje apresentando O Bonde para o mundo. Tenho muitas lembranças boas destes 8 anos de trabalho. A equipe sempre foi unida e havia muita amizade entre nós, em uma das turnês pelo nordeste eu pude juntar dinheiro para comprar meu piano (olha que maravilha!). As inúmeras cidades do Brasil que conheci, situações engraçadas, são muitas lembranças e sou muito grata a tudo isso.

- Quem são as suas referências?

Elis Regina, Elizete Cardoso, Billie Holiday, Miriam Makeba, Madonna, atualmente gosto muito da portuguesa Carminho.

- É muito difícil atualmente ser músico no Brasil? 

Sim, o Brasil é um celeiro de grandes talentos, mas a viabilização de projetos artísticos é muito complicada. Por sorte hoje estamos na era da tecnologia avançada e a internet é extremamente necessária para um projeto ainda independente como o meu. O financiamento coletivo é uma maneira muito eficaz de levar um projeto adiante, mas é um processo bem trabalhoso, tem que se ter humildade e muita coragem para conseguir sucesso numa campanha de crowdfunding.

"O Brasil é um celeiro de talentos, mas a viabilização de projetos artísticos é muito complicada. Por sorte hoje estamos na era da tecnologia avançada e a internet é extremamente necessária para um projeto ainda independente como o meu." 

- Fale um pouco sobre a força da mulher hoje na música, bombando por aí em vários ritmos...

A mulher tem ganhado cada vez mais espaço e isso me deixa muito feliz. O Brasil sempre teve a tradição de mulheres cantoras interpretando composições masculinas e agora está cada vez maior o número de mulheres que cantam suas próprias composições. Vejo isso por todos os lados, no sertanejo as meninas estão com força total, no pop a Anitta é a maior revelação do país e eu gosto muito dela. E na MPB também nós mulheres estamos rompendo essa barreira, estamos ganhando força como um ato de resistência.

Make up: Marco de Barros



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