Lan Lanh e a “batida” certa em 30 anos de carreira: “Não foi fácil”

Ícone na percussão, ela lança Batuque, lembra preconceito e aprendizado com os “melhores”


  • 15 de novembro de 2018
Foto: Nanda Costa


Por Luciana Marques

A paixão de Lan Lanh pela música vem desde os 14 anos, muito influenciada pelo universo das “batidas” e o som dos blocos afros da Bahia, sua terra natal. Desde então, depois da mudança para o Rio, a jovem foi galgando seu espaço, vencendo com talento e deteminação qualquer tipo de preconceito por ser mulher num universo quase que totalmente masculino. Hoje, é referência na percussão brasileira, e tem orgulho de ajudar a “pavimentar essa estrada para outras mulheres”.

Mas lembra, claro, que nem tudo foram flores nesses 30 anos de carreira. E ressalta também que as escolhas certas e as parcerias incríveis de nomes como Marisa Monte, Carlinhos Brown, Cyndi Lauper e, principalmente Cássia Eller, foram essenciais para o seu crescimento como artista. “Sempre estive com os melhores, e aprendi muito”, conta.

Atualmente, ela vive um grande momento profissional. Nesta quinta-feira, 15 de novembro, está em Las Vegas, onde concorre ao Grammy Latino na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa, com Aponte. A música é uma composição de Lan em parceria com Nanda Costa, sua namorada, e Sambê, na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa.

Neste super bate-papo com o ArteBlitz, Lan Lanh, que tem 50 anos, mas "luta e toca como uma garota", conta tudo sobre o novo álbum Batuque, disponível nas plataformas digitais a partir de 23 de novembro. Ela fala ainda da relação com Nanda, de intolerância e muito mais. Imperdível!

Foto: Reprodução Instagram

Quando nova, você já se via ligada à música, como iniciou essa relação tanto com a música, quanto com a percussão?

Comecei a estudar violão com uns 14 anos, aos 16 me encantei pela bateria e comecei a estudar na universidade de música da Bahia. Formei uma banda com umas meninas, que tinha uma formação inusitada pra época, éramos um power trio, eu na bateria + guitarra e baixo e convidei para a percussão a neta da 'Mãe Menininha do Gantois', a Mônica Millet, que tocava atabaques, pandeiro. E esse universo da percussão e da música afro entrou na minha vida junto com o som dos blocos afros que eu ouvia pelas ruas da cidade de Salvador, minha terra natal.

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Quem desde cedo sempre foi referência para você na música? 

Na Bahia ainda os blocos afros, Carlinhos Brown, Armandinho do trio elétrico, os tropicalistas, Gil, Caetano... Depois conhecei Led Zeppelin, e o mundo fui descobrindo aos poucos! 

E quando efetivamente viu que era isso que queria seguir profissionalmente? 

Já nessa banda que formei na Bahia, Rabo de Saia, começamos a fazer shows, viemos pro Rio de Janeiro, assinamos com a gravadora Wea Music, e gravamos nosso primeiro álbum, que já tinha composições minhas. E assim seguimos fazendo shows pelo Brasil. Mas ainda parecia brincadeira, éramos jovens, mas na real já estava trabalhando e vivendo de música. Comecei a me sustentar aos 18 anos!

Hoje a gente fala o nome Lan Lanh e todo o mundo conhece, a vê como referência na percussão. Mas nesses 30 anos de carreira você passou por perrengues, chegou a pensar em desistir, teve momentos complicados, porque não é fácil ser músico no Brasil, né? 

Não foi fácil, principalmente por ser mulher, num universo totalmente masculino. Fui entrando, e com talento e determinação fui me estabelecendo. Hoje tenho uma carreira sólida, mas claro que sofri preconceitos, assim como qualquer mulher sofre hoje ainda, quando se lança no mundo que ainda é extremamente machista. Mas me sinto feliz e orgulhosa por ter ajudado a pavimentar essa estrada musical por onde passam tantas mulheres  hoje em dia!

Com Sambê e Nanda Costa, em Las Vegas, para a cerimônia do Grammy Latino. Foto: Reprodução Instagram

Que balanço você faz desses 30 anos de carreira. Se arrepende de algo, acha que tudo acontece no seu tempo e hoje se vê colhendo muito do que plantou? 

Sim, colhendo os frutos! Mas isso porque aprendemos mais com o fracasso do que com o sucesso, e o meu sucesso é que sempre fiz boas escolhas e tive parcerias musicais incríveis. Sempre estive ao lado dos melhores, e aprendi muito ao longo destes 30 anos na batida! Toquei com Tim Maia, Nando Reis, Marisa Monte, Brown, Elba Ramalho, Cyndi Lauper... Mas foi com Cássia Eller que tive uma visibilidade bem maior e me destaquei na sua banda. Depois criei coragem de me lançar numa carreira solo e fiz  meu primeiro disco Com Ela, que foi premiado pela APCA em 2002. A partir daí, com esse reconhecimento, me lancei como artista solo e sigo assim com meu trabalho autoral desde então. Seja nos coletivos Moinho ou Batida Nacional até o no meu mais recente trabalho que venho fazendo. Estou em turnê desde 2017 e perto do lançamento deste disco que é fruto desta longa estrada, e celebro os 30 anos com o Batuque, disco que estará disponível em todas as plataformas digitais no dia 23 de novembro.

Fale um pouco do álbum Batuque. O que você traz de maior novidade nesse trabalho em relação aos outros?

É uma viagem pelos ritmos brasileiros, é um disco diferente de tudo que já fiz nos meus álbuns solos Com ela (2002), Mi (2013) e nos coletivos Moinho e Batida Nacional. BaTUque é um disco totalmente voltado para a percussão e as minhas origens afro baianas, fruto deste show que está na estrada há dois anos, da química com os dois músicos que me acompanham, e esse repertório que a gente vem lapidando. No show eu conto a história da música brasileira através das batidas, dos principais ritmos, interpretando alguns compositores dos gêneros musicais que fizeram a minha cabeça, a minha base musical.

A capa do disco. Foto: Nanda Costa

Cite algumas canções do CD...

Começo tocando pra Xangô no afro samba Canto de Xangô de (Baden Powell e Vinicius de Moraes),  Coisa N° 4 do maestro ( Moacir Santos) dá o tom afro jazz que também é a atmosfera do disco, que é mais instrumental. A minha assinatura de pioneira do Cajón no Brasil se revela em arranjo afro flamenco para Santa Morena, um chorinho de Jacob do Bandolim. O violão de 6 /7 cordas de Guto Menezes e o cavaquinho de 5 cordas de João Felippe desfilam as melodias nas cordas para que eu, na figura de Ogan feminino fique bem solta para os improvisos de Cájon, atabaques, pandeiro e berimbau. O som é bem orgânico em sua essência, porque é acústico e tem essa textura de cordas, couro e madeira. A minha voz que soa como mais um dos instrumentos que toco, aparece nas  duas canções autorais: Semba do Moinho, que tem um balanço faceiro que faz a ligação da Bahia com a África; e a outra cantada é uma parceria inédita com Nando Reis, uma poesia, que veio em forma de mensagem via WhatsApp. Estava triste e tocando violão quando recebi esta mensagem dele, fiz a música neste mesmo instante e mandei pra ele, respondendo a mensagem. E perguntei: 'Gostou?' E ele respondeu que se acelerasse um pouco o andamento poderia virar um hit no carnaval da Bahia (risos). Saiba que te amo muito tem violão de Luis Brasil e remix de Deeplick, meu parceiro no Coletivo Batida Nacional, que também assina a mixagem e a masterização do Batuque.

 

 

Qual a importância de ter a Nanda Costa como parceria tanto em sua vida profissional, como a pessoal?

Um parceira na vida. A gente se parece, se completa, sozinhas vamos bem, juntas somos melhores, vamos mais longe, somos um time campeão. Amo muito!

Com todo esse movimento de conservadorismo, intolêrância que temos visto no país ultimamente, esse momento meio “cinza”, como você, que tem uma união homoafetiva, tem visto tudo isso, como tem tentado lidar?

Amor é amor! Não é comum mas é normal, música que compomos e que de certa forma selou em versos o nosso encontro, tocou as pessoas porque fala com leveza que amor de igual é igual e não faz mal nenhum. A gente se apaixona e ama pessoas, se é homem ou mulher não importa, e assim ouvimos muito falar de representatividade. E gerou uma onda de amor e respeito muito grande! Isso é o que importa e é nas coisas boas que procuro focar!

Como recebeu a indicação de Aponte, parceria sua com Nanda e Sambê, ao Grammy, na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa?

Com muita emoção e felicidade, e assim eu já me sinto até premiada, porque é um reconhecimento de meus 30 anos de música, criando, tocando, produzindo!

Explica um pouco sobre o projeto Escuta as Mina, de onde surgiu a ideia, o que vocês buscam mostrar ali?

Me convidaram para fazer parte deste elenco de mulheres que seguem a risca as pioneiras desbravadoras que abriram alas pra gente passar, como Chiquinha Gonzaga, Dona Ivone Lara, Cássia Éller... E nós somos estas minas que prosseguimos assim fortes e lutando como umas garotas, pavimentando a estrada para outras mulheres caminharem no futuro!



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