Carlos Dias faz show do CD Copacabana Station na Broadway

Desde 2014 em NY, brasileiro mostra clássicos do jazz com tempero nacional


  • 27 de julho de 2018
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

* Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Desde 2014 vivendo em Nova York, o paulistano Carlos Dias vai realizar mais um sonho nesta sexta-feira, dia 27 de julho. O músico faz show do CD Copacabana Station, em que homenageia os ícones do jazz Frank Sinatra e Nat King Cole, na tradicional casa de espetáculo Iridium Jazz Club, na Broadway, em Nova York. “Vai ser muito especial”, diz ele.

No álbum, Carlos traz um tempero brasileiro. “Pensava, estou cantando uma música que é deles aqui, o que posso mostrar de diferente? Comecei a tocar bandeiro, trouxe um pouco de samba, e ele adoraram”, conta ele, que logo na chegada à cidade tocou na banda Brazilian Music Soul, onde teve a oportunidade de se apresentar em locais como a B.B. King Blues Club & Grill, na Times Square.

Nesta entrevista, Carlos lembra das dificuldades em seus primeiros dias em NY, principalmente com a língua. Mas garante que hoje já se sente em casa. “Falo que aqui realmente é um portal do mundo. Todo o artista ou a pessoa gosta de arte vem para cá, se inspirar, ou conhecer tudo que acontece”, diz ele, que já foi backing vocal do cantor Edson Cordeiro.

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Você vive desde 2014 em NY, o que mudou na sua vida desde então, profissionalmente?

Vim com aquela coisa de realização de sonho, sempre admirei a música norte-americana. Cresci ouvindo rock americano, o jazz que sempre me encantou, essa coisa da voz masculina. Como eu sou um barítono cantor, sempre buscava referências de cantores que falavam a mesma língua que eu. Quando você começa a cantar, tenta muito imitar outras pessoas, até que você toma consciência do seu instrumento e vê que é mais fácil buscar imitar gente que tem a mesma voz que você. E tive o prazer de conhecer no Brasil a cantora Vanessa Falabella, e ela já havia morado em Nova York. Comentei a respeito desse sonho de vir para cá e cantar, e ela falou: 'Vamos para lá, eu estou planejando ir também'. E a gente começou a produzir música, bossa nova, jazz com beat eletrônico, e montamos a banda Brazilian Music Soul, e começamos a nos apresentar. Por incrível que pareça, a minha primeira apresentação em Nova York foi no Iridium, onde tantos ícones da música norte-americana e do mundo todo já se apresentaram.

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Enfrentou alguma dificuldade para se adaptar à cidade?

A vida aqui em Nova York não é fácil. E a gente faz uma mudança toda de vida, tinha minha carreira no Brasil como ator. Mas eu sempre tive esse sonho. Frank Sinatra já dizia, se você fizer aqui em Nova York, você pode fazer em qualquer lugar. Mas o desafio é grande, vir para cá com o nosso sotaque, cantar música americana, cantar New York em Nova York, uma música super famosa onde Frank Sinatra se consagrou, né? Então, foi um desafio. A distância de familiares, a dificuldade com a língua no começo. Em 1999, morei na Austrália, e aprendi bem. Mas quando cheguei aqui, tava bem crua, comecei a estudar de novo. Com a música você precisa saber ouvir muito bem para poder cantar bem. Depois consegui um trabalho de bartender, e isso me deu a oportunidade de conhecer muita gente, de saber mais da cultura deles. Posso dizer que hoje eu tenho uma vida realmente nova-iorquina, me tornei um brasileiro muito nova-iorquino, e eu amo essa cidade.

 

 

O que mais te encanta em Nova York?

Nunca vi uma variedade tão grande de informações, principalmente relacionada à arte. Falo que aqui realmente é um portal do mundo, você faz a arte aqui e vai para o mundo, não fica estagnado, principalmente hoje com toda essa tecnologia, internet, Instagram, Facebook, já coloca sua arte em todos os lugares. Então, Nova York é isso, um poço de riqueza artística, e uma cidade muito louca. A gente acha que São Paulo é uma cidade grande e veloz, Nova York é triplicado, porque tudo se passa numa ilha, Manhattan. Então é esse monte de gente muito focada em seus objetivos, é tudo muito tenso, muito vivo, muito veloz. E todo mundo que está aqui vem em busca de realização de um sonho, então é uma energia muito forte com isso.

Além de modelar, você fez muitos trabalhos na sua carreira como ator, tem saudades de atuar ou se decidiu agora só pela música?

Eu modelava no começo de carreira, achava isso uma coisa legal, tinha uma vida 'vip'. Ao mesmo tempo, estudava artes dramáticas no Teatro Municipal Macunaíma, onde acabei me formando. Só que esse negócio de modelar, eu gostava muito do meio, das oportunidades, de poder viajar, fotografar, gravar comercial. Mas achava uma coisa meio sem conteúdo. E a música fazia parte da minha vida, o meu avô, o grande violinista Clemente Capella, influenciou muito a minha vida musical, sempre tive ele como ídolo, com relação a coisas que ele fazia e realizava. E no meio de tudo isso, eu me tornei um ator, mas quando eu vim para Nova York eu foquei só na música. Se eu tenho saudade de atuar? Adoro, eu amo. Não corro atrás aqui, mas tive o prazer de participar de um filme que é uma série que se passava em São Francisco, e eles me convidaram para atuar. Mas estou sempre aberto, porque atuar está na veia, eu fiz tantos anos isso na minha vida.

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Quais são as suas referências hoje, além de Frank Sinatra e Nat King Cole, quem mais você escuta?

Posso dizer que tem um cantor que eu admiro demais que se chama Kurt Elling, um cara do jazz que para mim está no topo de domínio do instrumento vocal. Tem os antigos, Mark Murphy, que morreu recentemente. E, claro, a gente sempre ouve todos os envolvidos no jazz como Ella Fitzgerald, Nat King Cole, e muita coisa de world music, essa mistura da música americana com a música tradicional de outro país. E todo lugar que você entra, num bar, que tem live music, eles são todos músicos da melhor qualidade. Apesar de estar aqui, e ouvindo muito mais música brasileira do que quando eu estava no Brasil, isso aconteceu comigo quando eu morei na Austrália também. Você sai do seu país e se torna muito mais brasileiro do que quando você está no seu país, porque as pessoas buscam aquilo de você, querem saber da tua origem. Tenho ouvido muita coisa brasileira das bossas antigas, sou muito influenciado pela música do Norte, do Nordeste, como maracatu, baião, e o povo aqui gosta muito. E uma outra coisa que eu apresento, trago para o jazz, é o berimbau. Eu, como capoeirista que fui, não sou mais, procurei trazer o berimbau para esse meio do jazz. E o povo adora!

Pelo o que você acompanha em NY, quem da música brasileira os americanos conhecem mais hoje e têm ouvido por lá?

Por incrível que pareça, é aquele sonho de músico. Quando você está no Brasil, você gostaria que a música mais famosa, fosse uma de qualidade musical como bossa nova, samba tradicional, essas coisas que infelizmente não se ecoam em qualquer canto do país no Brasil. Mas aqui eles dão o maior valor é para isso, então eles falam muito do Tom Jobim, do rei Tom Jobim, João Gilberto, Sérgio Mendes. Eles ainda têm essa referência da bossa nova como o jazz brasileiro, e é uma coisa que eles não conseguem tocar como a gente, eles tentam, mas essa coisa de ser brasileiro, de ter essa musicalidade correndo na nossa veia, é só nosso.

Em seu mais recente trabalho, Copacabana Station você faz uma homenagem a Sinatra e Nat King Cole com saber brasileiro. Explique um pouco isso...

Esse meu trabalho, Copacabana Station, eu acabei fazendo isso, porque vim cantar jazz na cidade do jazz, um grande desafio, né? E cantar em inglês, cantar música de Frank Sinatra e Nat King Cole, Chet Baker, eu pensei, caramba, o que eu posso oferecer de diferente para eles? Estou cantando uma música que é deles aqui, e é muito presunçoso da minha parte, digamos assim, eles aceitarem o que estava trazendo. E como toco pandeiro também, guitarra, comecei a cantar aquela música All Of Me com pandeiro. Trazia para o show, e no meio eu tocava com o pandeiro, e trouxe para o samba, então, e eu vi que todo mundo adorava aquilo. Então, montei uma parceria com um grande músico de São Paulo, o Weslley Amorim, ele me ajudou nos arranjos, ele entendeu muito a minha história e o que eu queria passar. Acabei trazendo esses standards de jazz num tempero brasileiro, então a gente encontra ijexá, baião, samba, bossa nova. 

Como definiria o seu estilo ou prefere não se rotular?

O meu estilo musical, as pessoas aqui chamam que é um jazz mas também pode ser world music, porque eu misturo jazz com música brasileira, então abrange de uma outra forma. Tenho um trabalho da Brazilian Music Soul, junto com a Vanessa Falabella, que é uma coisa mais brasileira, funkeada, com samba rock, muito bacana. A gente teve o prazer de estar com essa banda por seis meses no B. B King, uma das casas mais importantes de música aqui de Nova York, que infelizmente fechou esse ano. E isso era um sonho, você andar na Times Square e ver no outdoor da casa Brazilian Music Soul, e tivemos grandes pessoas circulando. Até um fato muito interessante, engraçado. A gente acabou um show, e vem esse cara meio bêbado, já era tarde, querendo falar comigo. Como estava atendendo uns conhecidos, pedi um minuto. E ele falava: 'Nossa isso é rock and roll'. E na hora que eu fui dar atenção, ele tinha ido embora. E eu lembro que ele falou antes pra mim: 'Você conhece os Stray Cats? E eu, claro! Era uma banda que eu acompanhei na minha juventude. E ele disse, eu sou o Stray Cats. Depois eu fui procurar no google e o nome dele era Lee Rocker, era o baixista. E eu pensei: 'Nossa senhora!' Então, esse tipo de coisa acontece muito aqui, e eu nunca mais o vi infelizmente. Mas o cara estava lá, assistindo meu show!

Como está a expectativa para o show desta noite, dia 27?

Esse show no Iridium vai ser muito especial. Vai ser a primeira vez que eu vou tocar e cantar as músicas do meu CD Copacabana Station, e vou estar lá na Broadway, cantando para as pessoas que estão aqui de passagem, buscando música boa. Então, a expectativa é muito grande. Quero ver a reciprocidade do público, sei que vai ser muito boa, porque eu já venho fazendo esse tipo de trabalho já há quase três anos e meio aqui, cantando jazz, com um tempero brasileiro aqui e ali.



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