Roberto Birindelli: Novo longa com referência noir estreia no streaming na Argentina

Ator protagoniza coprodução Brasil e Argentina Agua dos Porcos, com lançamento em 30 de julho


28 de julho de 2020

Foto: Wagner Carvalho

Por Luciana Marques

Com mais de 50 filmes, entre curtas e longas, em sua trajetória, Roberto Birindelli está prestes a estrear mais um, uma coprodução Brasil e Argentina: Águas Selvagens, intitulado Agua dos Porcos, na Argentina. A expectativa por ver mais um trabalho na telona é a mesma, ainda mais por dar vida a um protagonista complexo, numa trama com referências do cinema noir. O diferencial é que por conta da pandemia, o lançamento será no streaming, neste dia 30 de julho, em Buenos Aires. “Espero que ano que vem, quando chegar no Brasil, a gente consiga juntar os amigos no cinema e ver pessoalmente a reação das pessoas”, torce ele.

No longa falado em espanhol, com direção do argentino Roly Santos, o elenco conta com atores brasileiros, argentinos e uruguaios, e foi rodado no Paraná. Birindelli dá vida a Lucio Gualtieri, um ex-policial investigador que enfrenta problemas em sua vida pessoal e aceita um trabalho para solucionar um crime cometido na tríplice fronteira, zona de águas selvagens. Porém, logo se vê envolvido em um enredo macabro de assassinatos, prostituição e tráfico de menores. “O espectador vai descobrindo a trama a partir do que o detetive vai encontrando. Baita exercício de linguagem”, avalia o ator.

Birindelli também está no elenco da novela Nos Tempos do Imperador, que deve estrear na Globo em 2021 por conta da pandemia, da série 1 Contra Todos, da Fox Brasil, e ainda pode ser visto na reprise de Apocalipse, na Record TV.

O que mais instigou você ao participar de Águas Selvagens? guas Selvagens ou Agua dos Porcos, título na Argentina, é um filme de estilo. Tem referências do cinema noir, uma história com crimes, detetives, reviravoltas insuspeitas e mulheres fatais, como o cinema americano dos anos 40 e 50, como a nouvelle vague um pouco também. Se falava em cinema noir pois as tramas aconteciam sempre em noites escuras. Em Águas Selvagens o ambiente é muito solar, mas a temática é noir. Clássico nesse estilo, o detetive sai em busca de uma informação, de um caso a desvendar. Os elementos vão sendo apresentados aos poucos e vamos descobrindo que nada, de fato, é o que parecia ser. Há uma trama muito pior que o assassinato que veio desvendar, e quando o rumo das coisas sai de seu controle, terá de tomar duras decisões. O espectador vai descobrindo a trama a partir do que o detetive vai encontrando. Baita exercício de linguagem.

O ator em cena de Agua dos Porcos. Foto: Pedro F. Rodrigues 

Qual foi o seu maior desafio para viver esse protagonista? Lucio Gualtieri é um ex-policial investigador argentino, falido, com problemas e culpas em relação a sua ex e sua filha, precisa dinheiro para pagar a pensão, então aceita um trabalho para solucionar um crime cometido na Tríplice Fronteira. A narrativa tem várias camadas, nada é o que parece no início. Cada situação contém um detalhe que o leva para outro lugar onde tem algo escondido. Pesquisei bastante a região e já fiz vários personagens policiais. Lucio é um detetive que tem seus problemas pessoais, foi muito humanizado no roteiro. É uma história muito interessante, ele tem problema com a filha, ele tem problema de relacionamento, ele tem problema de dinheiro, ele pegou este emprego para tentar resolver um problema familiar. Ao mesmo tempo vai se ver envolvido numa rede de crimes mais hediondos, em linhas que ele não imaginava ultrapassar, e em relacionamentos que o desestabilizam. Tem muito material aí pra compor, e uma curva dramática bem extensa. Belo desafio.

Na sua opinião, qual o tema tratado na obra que é sempre importante ser abordado? O filme é baseado no livro El Muertito que parte de uma lenda local de Missiones, na Tríplice Fronteira. Uma história sobrenatural sobre um menino morto que se transformou em anjo. Este detetive se vê envolvido numa investigação e vai procurar indícios de um crime relacionado a tráfico de crianças, comum nas regiões fronteiriças. Durante a investigação, porém, descobre que além do tráfico de crianças, está envolvido numa rede de pedofilia. O filme segue numa série de eventos cada vez mais inusitados e mais violentos, e El Muertito vai se tornando a pedra fundamental da história.

O longa é uma coprodução Brasil e Argentina. Como foi a parceria com atores argentinos e também alguns uruguaios? Águas Selvagens é minha quinta ou sexta coprodução, já fiz Brasil/Argentina, Brasil/Uruguai,  uma Panamá/Medelin e Chicago, o filme Human Persons, agora vou fazer uma Inglaterra/Espanha. Estou sempre metido em alguma coprodução. É sempre uma experiência muito enriquecedora. Atores argentinos como Daniel Valenzuela, Juan Tellategui, Mario Paz e Mausi Martinez. E do elenco brasileiro Luiz Guilherme, Mayana Neiva, Allana Lopes e Leona Cavalli, entre outros. Amigos que vão ficar para sempre. Uma delícia esse mês e meio trabalhando naquele frio de Tijucas do Sul, Paraná, com uma equipe jovem e com muita disposição.

O ator nos bastidores de Agua dos Porcos com a colega de cena Leona Cavalli. Foto: Divulgação

O que você acha do cinema argentino, eles têm feito filmes muito bons, né? O cinema argentino, e mais recentemente o mexicano tem mostrado consistência, investimento do poder público, relevância e crescimento. Claro que temos que levar em consideração uma base enorme de cuidados com o sistema educacional e com a leitura. Daí que vem esses roteiros incríveis.

Você é um dos atores brasileiros que mais faz cinema. O que esperar dessa volta das produções, acha que a área vai demorar muito para retornar, ainda mais se não tiver incentivo? Sim, temos um desafio enorme pela frente. Lutar contra a pandemia e o governo que tenta inviabilizar toda manifestação e produção artística. Resistiremos e sobreviveremos...

Acredita que nessa fase o streaming passa a ser a maior vitrine para os filmes, mesmo para os lançamentos? Por enquanto tem se mostrado a alternativa mais viável. Água dos porcos vai ser lançado online na Argentina dia 30 de julho. Nós não vamos ter espectadores ao vivo, vamos ver a repercussão nas redes sociais e na imprensa, mas espero que ano que vem, quando chegar o lançamento no Brasil, a gente consiga juntar os amigos no cinema e ver pessoalmente a reação das pessoas.

Como tem passado e sentido essa quarentena? Estive nos festivais de Porto e Manchester. O plano era retornar a Lisboa e vir pro Brasil só dia 27. Mas as condições na Europa pioraram muito rápido, e encurtamos a viagem. Foi um sufoco sair. O tumulto no aeroporto de Londres já dava pra entender o caos. Vim direto para a quarentena em casa. Isolamento, recolhimento e pensar na vida. Sem acesso a restaurantes, locais públicos, passeios. Tenho comprado, online, apenas comida e homeopatia. Mas o que esse isolamento mais mostrou é que o que mais sinto falta é das pessoas. Acho que na volta desse confinamento as pessoas vão valorizar mais umas às outras.

E o que tem feito nesse período de isolamento social? Assisto séries e filmes, livros, arrumo a casa, troco tomadas, fiação, lavo e passo roupa – descobri que sou um desastre passando roupa. A grande mudança, pelo que posso perceber agora, é minha relação com o tempo. Isso vai mudar definitivamente pós quarentena. Entendo todas as necessidades, compromissos, expectativas, mas também entendo que meu tempo... é meu. Tenho sentido muito mais falta das pessoas do que de viagens, consumo, e demais coisas periféricas.