Karin Roepke: “A crise nos motiva a procurar novos caminhos e é o que busco com minha arte”

Atriz atua em série e em dois curtas, um deles o premiado Cinzas, com direção do marido, Edson Celulari


  • 30 de setembro de 2019
Foto: Vinícius Mochizuki


Por Luciana Marques

Cria do teatro, a atriz Karin Roepke vive uma fase frutífera no audiovisual. Na televisão, ela dá vida à antagonista Flávia, na série Chuteira Preta, no Prime Box Brazil. Já no cinema, atuou em Cinzas, curta-metragem dirigido pelo marido, o também ator Edson Celulari, premiado em festivais da Índia, da Espanha e do Equador. “Toda a experiência do Edson como ator agregou a ele um know how enorme de como conduzir um set de filmagem”, conta Karin.

A atriz ainda está no elenco do curta Europa, em que divide a cena pela primeira vez com Celulari, que também assina a direção. Com mais de sete anos de relação, Karin diz aprender diariamente com o “olhar de curiosidade” do marido para o mundo. Na entrevista, a atriz também avalia o atual momento de desmonte da cultura no Brasil. E diz que a hora é de resistência e de se reinventar. “A crise nos motiva a procurar novos caminhos e é isso que eu busco com a minha arte”, fala.

O que mais instigou você ao viver essa mulher elitista, gananciosa e egocêntrica na série Chuteira Preta? A Flávia seria “um prato cheio” para qualquer analista e eu, como atriz, sou uma investigadora de almas. Ao me deparar com um personagem cheio de dualidade, fiquei fascinada com as possibilidades de interpretação que ela poderia me proporcionar. Falam que nos revelamos mais pelas nossas ações, do que pelo que falamos, e ela é uma mulher de ação, de atitude, faz coisas malucas, mas tem uma certa coerência nisso. Tentar entender como funciona uma mente fora do padrão é delicioso.

Karin na série Chuteira Preta. Foto: Gilberto Perin/Divulgação

Acredita que há mesmo na vida real muitas “Flávias”, esse tipo que só pensa no próprio umbigo e não tem empatia por ninguém, conheceu alguém assim? Eu acredito que, desde que o mundo é mundo, existem pessoas egoístas. Mas também acredito que nossa real essência é amorosa. Então acho que quem está nesse nível de egoísmo, está longe de si. Na verdade, pensar só em si mesmo é de uma solidão enorme, isso traz infelicidade. Já conheci gente assim, e não me senti confortável no convívio. Para viver qualquer relacionamento é preciso ter troca.

O assunto da série é forte, corrupção no futebol, um universo bem longe do “conto de fadas” que vivem poucos jogadores sortudos. Qual a importância na sua opinião de se falar disso? Para mim, o mais importante não é falar sobre a corrupção do futebol, mas o que ela pode causar na vida de quem convive nesse meio. O importante é falar do ser humano, dos sentimentos, essa é a reflexão artística que me interessa. Retirar o véu de “conto de fadas” pode humanizar esses jogadores. Na maioria dos casos, esses rapazes viram o produto de um esquema e não tem estrutura emocional nenhuma para lidar com a pressão da fama, e a falta dela. No caso do nosso protagonista, o Kadu, (Marcio Kieling), acontece exatamente isso: ele perde a paixão pelo futebol e tem que encontrar o caminho de volta às origens que o motivaram a ser um jogador.

Hoje as séries nos canais fechados, streamings, estão aí fortes. Acha que de alguma forma o monopólio das novelas chegou ao fim, e esse gênero veio para aquecer o mercado de atores, profissionais e técnicos do audiovisual? Eu torço muito para que o monopólio das novelas nunca acabe! (risos). O créme de la créme do audiovisual brasileiro são as novelas e isso é um orgulho para nós. Acho que podemos fazer tudo: novela, série, minissérie, curta-metragem, longa-metragem... Um dá força pro outro, o conteúdo que for de boa qualidade terá espaço. Somos um país criativo, com espectadores exigentes, que gostam de consumir diferentes gêneros. Desejo que o mercado audiovisual produza cada vez mais e melhor.

A atriz é dirigida por Celulari no premiado curta Cinzas. Foto: Reprodução Instagram

O curta Cinzas, dirigido pelo Edson, e em que você atua vem ganhando prêmios por vários festivais. Por que você acha que esse filme tem chamado tanto a atenção? Cinzas é sobre a dificuldade de duas irmãs se desfazerem das cinzas da mãe. Elas passam o filme inteiro tentando encontrar o lugar ideal para a despedida e, na verdade, elas não querem encontrar, não querem deixar ir embora o último vínculo concreto que existe dessa relação. Isso é muito humano. Acho que a identificação com o apego é um ponto forte do roteiro. Além disso, essas personagens tem uma força e senso de humor que instigam o espectador. A morte não as fragiliza, elas não se tornam vítimas da situação. Acho esse ponto de vista interessante. 

Como é ser dirigida pelo seu marido, e o que mais vem chamando a sua atenção do Edson como diretor? Toda a experiência do Edson como ator agregou a ele um know how enorme de como conduzir um set de filmagem. Ele entende as dúvidas que um ator pode ter, por já ter vivido isso muitas vezes, e isso dá uma liberdade no diálogo diretor/atriz. Além disso, ele tem uma personalidade agregadora e liderança positiva, a equipe teve liberdade de criação, cada um da equipe estava inteiro no projeto, porque sabia que sua opinião era importante. E eu não tive tratamento especial por ser esposa do diretor, não... Trabalho é trabalho, marido e mulher à parte (risos).

Em Europa, outro trabalho do Edson na direção, vocês fazem um casal. O que esperar desse trabalho? A princípio, como uma primeira imagem, é uma discussão de relação passional e cheia de surpresas. O roteirista desse filme é o madrileño José Manoel Carrasco, esse curta tem um DNA espanhol. Existe um timing interno dos personagens cheio de mágoa: uma inquietude que vai sendo descoberta aos poucos e é subvertida pela linguagem cinematográfica. Os personagens são muito ricos e o processo de criação foi muito generoso.

Você também pensa em se enveredar para a direção, curte isso, porque você já é produtora também, né? Eu tenho uma única experiência como diretora. Fiz roteiro e direção do curta L Vocacionado. Há dois anos eu estudei direção em um curso intensivo na ECAM, em Madrid. Adorei a experiência, mas preciso me aprofundar mais na linguagem audiovisual. Quanto mais conhecimento você adquire, mais segurança você sente e mais profundo pode ser o processo. Acredito que um diretor deve ter bastante domínio técnico, além de profundo conhecimento humano. Por enquanto, fico na atuação!          

Karin com o marido, Edson Celulari, com quem se relaciona há mais de 7 anos. Foto: Reprodução Instagram

Você é uma atriz também de teatro, agora vem investindo firme no audiovisual. Como vê essa situação de desmonte da cultura, “demonização” dos artistas, e como driblar isso? Semana passada eu assisti uma entrevista da Marieta Severo e me senti inspirada. Ela falou sobre a ditadura e a retomada do cinema nacional com o filme Carlota Joaquina, da Carla Camurati. Em suas palavras, “A arte sempre renasce porque é fundamental para o ser humano, para o país.” O Festival do Rio está fazendo uma campanha de arrecadação coletiva para acontecer em 2019, existe exemplo melhor que esse? Já passamos por um desmonte uma vez, vamos superar esse momento trabalhando mais ainda.

Você e o Edson estão há mais de 7 anos juntos... O que tem sido essencial para manter essa relação tão duradoura em época de relacionamentos tão volúveis? Nós já passamos por três reformas em casa juntos! (risos). Dizem que um bom termômetro pra saber se um casal dá certo é vivenciar uma obra, então eu acho que esse é o caminho (risos). Essa seria a imagem concreta de um relacionamento, a construção de experiências juntos. Nos nossos votos de casamento, tinha uma frase linda que dizia “eu sonharei os seus sonhos e viverei contigo”. É muito importante viver um relacionamento respeitando a individualidade do outro, os “sonhos” do outro. E não existe fórmula.     

O que você mais aprende ou mais aprendeu com ele que levará para sempre em sua vida? O olhar de curiosidade que Edson tem para o mundo é fascinante. Eu sinto que ele é uma porta aberta para o novo e possui um fluxo de energia pulsante em descobrir ainda mais a vida. É muito bom conviver com essa vitalidade!  

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