Cate Blanchett e Matt Dilon: A edição histórica do Festival de Veneza em meio à pandemia

A atriz Aymara Limma acompanhou os bastidores e avalia os filmes premiados na mostra


  • 15 de setembro de 2020
Foto: Montagem/La Biennale di Venezia/Andrea Avezz e Aymara Limma


* Por Aymara Limma

Como já disse Jodie Foster: Cinema é necessário!

E o que parecia impossível aconteceu, um milagre como definiu a atriz Cate Blanchett, presidente do júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Acredito que o amor ao cinema fez com que todos os obstáculos que vivemos neste momento fossem superados e a 77ª edição do evento italiano fosse realizada com sucesso. E aconteceu com disciplina, responsabilidade e união de todos. Os diretores dos principais festivais de Cinema da Europa se juntaram com Alberto Barbera, diretor do Venice Film Festival, e vieram apoiar a charmosa mostra.

O Festival é realizado na ilha do Lido, em Veneza, na Itália, desde 1932. É a mostra de cinema mais antiga do mundo, sendo assim um dos eventos internacionais mais prestigiados da área. Por ele, passam os profissionais mais importantes da indústria da sétima arte. E o evento que sempre ditou as tendências cinematográficas e indicou filmes ao Oscar, este ano o fez da mesma forma, mesmo em meio à uma pandemia. O evento foi o primeiro festival do mundo a ser realizado em tempos de Covid-19, fazendo novamente história, não só por abrir as portas para o público, mas também por vários outros acontecimentos.

Devido ao coronavírus, La Biennale di Venezia, organizadora do Festival, impôs vários protocolos de segurança, como o uso obrigatório de máscaras por toda a área do festival. O distanciamento social começou a ser imposto com os lugares marcados para evitar as tradicionais filas nas mais de 10 salas de projeções com os lugares reduzidos pela metade. Ao término de cada sessão uma equipe entrava para fazer a limpeza do espaço. E para evitar aglomeração das pessoas também foi construída uma barreira ao redor do tapete vermelho, por trás dos fotógrafos, tudo para impedir que o público ficasse ali assistindo ao evento.

Cate Blanchett Foto: Aymara Limma

Temos que ressaltar que as mulheres realmente reinaram nesta edição. A atriz Cate Blanchett brilhou como presidente do júri principal, sua primeira vez neste papel em Veneza. Ela já preside o júri do Festival de Cannes. Com o bloqueio da entrada de americanos na Europa por conta da Covid-19, este ano não tivemos todo aquele time “A” de celebridades, mas podemos contar com a presença do ator americano Matt Dillon, no júri do festival. Ele tem estado em Roma com a namorada, a atriz italiana Roberta Mastromichele. Mesmo com o momento complicado, estiveram presentes grandes nomes da indústria cinematográfica europeia. 

A FORÇA DAS MULHERES: DOS 18 FILMES EM COMPETIÇÃO, 8 FORAM DIRIGIDOS PELO OLHAR FEMININO

Há anos falamos de igualdade de gêneros na indústria cinematográfica, este ano, diferentemente de 2019, dos 18 filmes em competição, 8 foram dirigidos por mulheres. Sem grandes filmes dos estúdios de Hollywood, o público presente pode apreciar uma incrível seleção de produções de todas as partes do mundo, incluindo filmes italianos belíssimos. 

Nesta edição, tivemos 2 filmes brasileiros selecionados, Narciso em Férias, de Renato Terra e Ricardo Calil, em que Caetano Veloso conta o que viveu quando foi preso injustamente na época da ditadura militar. Já Gravidade VR, de Fabito Rychter e Amir Admoni, é um filme de realidade virtual. Vale lembrar que no ano passado vencemos 2 prêmios de melhor filme: um com Babenco - Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou, de Bárbara Paz, e o outro com o filme de realidade virtual A Linha, de Ricardo Laganaro

Os filmes selecionados fizeram desta mostra uma forma de reflexão sobre a vida e o momento atual que estamos passando. Alguns tirados de peças teatrais, como o filme de Pedro Almodóvar, feito durante o lockdown. The human voice é uma adaptação da peça do francês Jean Cocteau. O cineasta brilha com o filme de 30 minutos, o seu primeiro trabalho em inglês, em que dirige a sua nova favorita, a atriz inglesa Tilda Swinton. The human voice narra o drama de uma mulher ao telefone com o seu ex amante, o qual está prestes para se casar com outra. Essa obra já teve uma versão interpretada por Ingrid Bergman, em 1966. 

Pedro Almodovar e Tilda Swinton. Foto: La Biennale di Venezia/Giorgio Zucchiatti 

Regina King, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, agora como diretora lança o seu primeiro filme que deve caminhar de Veneza direto para o Oscar. One night in Miami é baseado na peça teatral de Kemp Powers. O filme fala de quatro afro-americanos reunidos em um quarto de hotel em 1964 depois que Cassius Clay, com 22 anos, move o mundo do boxe com uma vitória sobre o campeão peso-pesado Sonny Liston. Clay, que mais tarde muda seu nome para Muhammad Ali, se junta a Malcolm X, Jim Brown e Sam Cooke para discutir as desigualdades raciais e formas de usar a fama para juntos tornar o mundo um lugar melhor.

Le Sorelle Macaluso, peça teatral de sucesso na Itália, escrita por Emma Dante, foi adaptada pela mesma para o cinema, com várias mudanças. A história é sobre o drama de uma família de cinco irmãs e de como elas sobrevivem depois de um acidente que transforma a vida de todas para sempre. 

Já as produções biográficas, eu adorei The Duke, um filme delicioso de Roger Michell, diretor de Nothing Hill, no estilo Robin Hood, que fala sobre o roubo do quadro de Goya da National Gallery em Londres. Com Jim Broadbent, Helen Mirren e Mathew Goode, o longa é diversão garantida.

Em competição para o Leão de Ouro, o filme Miss Marx, sobre Eleonor, a filha mais nova de Karl Marx, dirigido pela italiana Susanna Nicchiarelli, que venceu com Nico 1988, o prêmio Horizons de melhor filme, no Festival de Veneza de 2017. 

VEJA ABAIXO UMA ANÁLISE SOBRE ALGUMAS DAS PRODUÇÕES PREMIADAS NO FESTIVAL

A portuguesa Ana Rocha de Souza venceu 2 prêmios com o seu primeiro filme Listen. Muito profundo, conta o drama de uma família portuguesa, que emigrada no Reino Unido, perde a guarda de seus três filhos menores para o serviço social, por suspeita de maus-tratos aos filhos.

Um dos filmes mais aplaudidos foi o iraniano Sun Children, de Majid Majidi, que conta a história de crianças que trabalham para sobreviver. É um filme impressionante! O diretor que costuma trabalhar com atores, não atores, fez teste com mais de 4.000 meninos, até achar o ator principal, Rouhollah Zamani. Ele ganhou o prêmio Marcello Mastrorianni, de melhor ator ou atriz jovem. Infelizmente, ele foi testado com a Covid-19 e não pode ir ao festival. Mas eu encontrei a jovem talentosa atriz que trabalhou com ele. Realmente, um belíssimo trabalho.

O filme japonês Wife of the Spy, de Kiyoshi Kurosawa, rendeu a ele o prêmio de melhor diretor, vale a pena conferir o filme. A atriz inglesa Vanessa Kirby, a princess Margaret da série da Netflix The Crown, estava em 2 filmes em competição, Pieces of a Woman e The World to come. E merecidamente acabou vencendo o prêmio de melhor atriz. 

A atriz Aymara Limma. Foto: Damian Laing

Já o prêmio de melhor ator foi para Pierfrancesco Favino, com o filme italiano Padrenostro, que conta um drama vivido pelo diretor Cláudio Noce. Pierfrancesco esteve no Brasil filmando com Maria Fernanda Cândido O Traidor, que estreou em Cannes no ano passado, e fala sobre o mafioso que morou no Brasil e casou com uma Brasileira, Tommaso Buscetta.

Na minha opinião o filme mais impactante foi New order (Nova ordem), escrito pelo diretor mexicano Michel Franco, há 6 anos, e retrata drama assustador sobre classes sociais. Franco me disse que escreveu uma história fictícia sem nenhuma intenção alarmista, mas que poderia acontecer em países como México e o Brasil. Esperamos que não aconteça em lugar nenhum, que esse drama fique somente retratado neste filme. New Order venceu o segundo prêmio mais importante do festival o Leão de Prata.

O grande vencedor do Leão de Ouro foi o drama americano Nomadland. Mas, na verdade, temos uma vencedora, a diretora chinesa Chloé Zhao, que escreveu, dirigiu e editou o filme. Ganhadora de duas estatuetas do Oscar francês, a atriz americana McDormand, brilhantemente nos transporta nesta produção para a vida da sua personagem, uma mulher com os seus 60 anos, que perde tudo na grande recessão. E em sua van, viaja como nômade em busca de trabalho. Chloé Zhao diz que não fez um filme politizado, mas ele não deixa de mostrar uma realidade um tanto difícil e que poucos conhecem. Um filme que emociona e provavelmente andará direto pro Oscar. 

Eu diria que para muitos, Cinema é vida! 

* Aymara Limma é atriz e esteve em Veneza para acompanhar o Festival.



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