Carolina Kasting aposta na produção cultural

"Dificuldades fazem parte do processo do artista”


  • 02 de janeiro de 2018
Foto: Reprodução Instagram


Por Claudia Dias

Essencialmente oriunda do teatro, Carolina Kasting está literalmente “abrindo os seus horizontes”. Ela vem correndo o mundo, e recebendo vários prêmios em festivais internacionais com o curta-metragem Escolhas, uma produção autoral de Ivann Willig, com grandes colaborações dela. Podemos dizer também que ela anda “na contramão” do atual momento do país. Enquanto governos dificultam os investimentos em cultura, ela meteu a mão na massa e tem alguns trabalhos prontos para sair do forno.

Nos palcos, Carol prepara um monólogo, também autoral, que faz um verdadeiro mergulho na vida da atriz, diretora e escritora norueguesa Liv Ullmann. Para completar a agenda, em março, lança uma exposição de fotografias, arte que já abraça há muito tempo. Coragem? Carol, que acaba de oficializar a união de 18 anos com o diretor Maurício Grecco, pai de seus filhos Cora e Tom, garante que não falta.

"Estamos com o filme Escolhas pelo mundo. Ganhei Melhor Atriz na Índia, dois prêmios, e um na China. É muito bonito ver o reconhecimento do seu trabalho de lá do outro lado." 

Com os filhos, Cora e Tom. Foto: Reprodução Instagram

Curta Escolhas rodando o mundo

“Esse curta é um trabalho super autoral. Tem roteiro e direção do Ivann Willig, que é maquiador e não tem a direção como sua profissão principal. Hoje em dia, a gente acaba tendo que ser uma empresa de nós mesmos, fazer trabalhos autorais, não só para falar daquilo que achamos importante, da marca que queremos deixar como artistas, mas também para viabilizar os trabalhos. Então, o Escolhas foi um projeto muito bonito. O Ivan me convidou há muitos anos. Mas engravidei e não pudemos rodar. E ele me esperou. Nesse tempo, foi muito bonito, porque o roteiro amadureceu, com a minha participação. Participei muito das mudanças, das versões novas, a gente conversava muito. Aí, fechamos esse roteiro e trouxemos um tema delicado, porque é uma denúncia, de certa forma, sobre abuso sexual.”

Tema abuso sexual

“Fomos pesquisar sobre o assunto, vimos o quanto era importante falar sobre isso, mas mantivemos o teor artístico do filme, no sentido de que ele é muito delicado. Ele é todo rodado em preto e branco. O Ivan, que é completamente apaixonado por cinema, como eu, manteve essa coisa sem cor. O filme se passa em uma fazenda, com essas duas mulheres - a Tuna Dwek faz a minha mãe. E não coloca o tema de uma maneira agressiva e nem de uma maneira que choca as pessoas. Trata do assunto de uma forma delicada e artística."

Foto: Reprodução Instragram

Prêmios

“Estamos com o filme pelo mundo. Eu ganhei Melhor Atriz na Índia, dois prêmios lá, e um na China. É muito bonito ver o seu trabalho pelo mundo e o reconhecimento de lá do outro lado. E alguns países dividiram o prêmio de Melhor Atriz entre eu e a Tuna, o que é muito bonito também, porque como é um trabalho de criação, considero que não tem como dissociar. O filme não seria o que é se não fosse a atuação dela, mas também se não fosse a minha atuação tanto nas filmagens quanto no roteiro.”

"O monólogo sobre a Liv Ullmann, com certeza, será uma virada na minha carreira, no sentido de trazer esses trabalhos mais autorais."

Experiência a se repetir?

“Com certeza! Diria que é o início de uma experiência. Lembro quando surgiram as câmeras digitais e facilitou o trabalho no cinema. E a gente dizia que qualquer um poderia pegar uma câmera e fazer cinema. Foi a primeira impressão que tivemos, que ia 'empobrecer' a produção, já que poderia ser feito por qualquer pessoa. A princípio, acontece um boom assim. Todo mundo pega a câmera e faz, mas depois de um tempo, a produção se assenta e quem realmente quer fazer cinema continua. Facilitou o meio de produção. Isso é genial! Uma das coisas boas da nossa era. É o principio de uma experiência. Quem sabe não virão outros curtas.

Foto: Carla Alves Fotografia

Monólogo sobre Liv Ullmann

“O teatro sempre foi muito importante para mim, porque eu, como atriz, comecei no palco e sempre tive o teatro como o meu alicerce. Onde eu sempre retorno para, de certa forma, recarregar as energias da minha atriz. E essa peça é muito importante, porque é um monólogo, escrito pelo Maurício Arruda Mendonça. Eu sempre tive muita afinidade com os livros da Liv Ullmann. Ela foi uma mulher forte, independente, bonita e inteligente nos anos 60. Naquela época ser inteligente e bonita era um pecado terrível. Ela falava sobre feminilidade e todas as questões que o feminino traz. Virou uma grande diretora, teve a relação com o Bergmann (Ingmar Bergmann). Na verdade, essa relação dela é o que menos me interessa. Na verdade, o que eu quero mostrar mesmo é a persona Liv Ullmann.”

Ideia do texto

"Quando conversei com o Maurício para ele escrever, já sabia que queria um monólogo. O Maurício mergulhou nesse universo. Liv não era só uma pessoa, tinha várias camadas: a da atriz, da mulher, da mãe, da ativista, da esposa. Todas me interessam. Até que um dia, o Maurício me mandou uma mensagem dizendo que achava que tinha encontrado. Como era um texto para o teatro, tinha que buscar um mote que justificasse a cena teatral. A ideia era não deixar intelectualizado demais. E aí, ele encontrou esse ponto. E foi muito bonito. Quando recebi o texto, me emocionei, porque vi ali tudo o que ela pode trazer de questionamentos, de exemplos. O monólogo é para o início do ano que vem. Com certeza, será uma virada na minha carreira, no sentido de trazer esses trabalhos mais autorais, de uma fala mais pessoal das coisas que vou fazer.

“A cultura é algo que forma um país, a pessoa. Mesmo que haja um movimento contrário a isso, ela vai sempre existir."

Escolha por trabalhos autorais

“Sempre tive isso presente na carreira, sempre fiz escolhas que tinham a ver com o que achava importante. Alguns, pude escolher, outros me foram dados e foram trabalhos muito bonitos, como por exemplo, Terra Nostra, na TV Globo, que foi uma virada na minha carrreira. E tem a ver comigo pela intensidade, qualidade artística. Acaba que, com a maturidade, esse processo todo do artista, quando ele tem essa preocupação, acaba amadurecendo e se aproximando dele mesmo. Entendendo ele mesmo como pessoa e como profissional, o que ele quer fazer. Daqui a pouco, vou embora daqui, como todos nós, mas o que quero deixar, qual é a minha marca? Esse é o grande questionamento.”

Foto: Reprodução Instagram

Trabalho de fotografia

“Muita gente não sabe, mas já fotografo há muitos anos. Em março de 2018, vou fazer uma exposição individual na Bhering, que é uma fábrica desativada, no Rio de Janeiro, ocupada pelos artistas. É um trabalho de fotografia bastante conceitual, pictórico. Outro dia, alguém me perguntou o que era a fotografia pictórica, e eu respondi que ela se aproxima da pintura, no sentido que tem o pigmento, a cor e a textura como algo bastante importante.

Televisão

“A televisão é sempre um projeto na minha vida, amo fazer. Ela tem uma característica de produção, que é uma agilidade e eu, com muitos anos de televisão, são 25 anos de carreira e 20 de TV, aprendi a gostar. É um ambiente que você não tem muito 'mimimi'. Você precisa produzir. E eu adoro isso, sou super disciplinada: gosto de chegar pronta, com o texto decorado e isso, de uma certa forma, é a parte autoral da TV. E é o de cada ator, você tem muita liberdade na televisão, porque o sistema de produção já está montado e é daquela maneira. Então, você se adequa a ele, mas com a sua fala, com o seu jeito de ser. E isso transparece para o público, principalmente o das redes sociais. Eles te dão muito esse retorno sobre os personagens.”

"Televisão é um ambiente que você não tem muito 'mimimi'. Precisa produzir. E adoro isso, sou disciplinada: gosto de chegar pronta, texto decorado, e isso, de uma certa forma, é a parte autoral da TV."

Investindo em cultura

“A cultura é algo que forma um país, forma as pessoas. Não existe pessoa sem cultura. Não é simplesmente um meio de produção ou um veículo. É o que faz o nosso país. Então, mesmo que haja um movimento contrário a isso, no sentido de que o governo possa - aquele governo especificamente -, implantar medidas que dificultem a produção cultural, ela vai sempre existir. É como o teatro. Houve uma época em que existiu esse questionamento sobre o fim do teatro. O teatro jamais vai acabar! Porque ele existe desde que o ser humano se viu em sociedade. Então, não procede esse tipo de pensamento. A gente vai continuar fazendo cultura, de uma forma ou de outra. E digo mais: faz parte do processo do artista lidar com as adversidades. Não digo que seja bom esse governo dificultar tudo e considerar a cultura como inexistente, mas a gente vai lidar com isso e isso vai ser determinante para a nossa produção cultural.”

O renascimento da cultura

“Acho que sim, que deu uma fortalecida por um sentido. Se não tenho subsídio para fazer uma exposição de fotografia na Fábrica Bhering, ou se não tenho patrocínio para a minha peça, todas essas coisas acabam fazendo com que os artistas arrumem uma forma de fazer. As produções de televisão são um exemplo, algumas começam como independentes e, daqui a pouco, já estão no mercado e dando retorno para esse mercado, alimentando e fazendo ele girar. Podemos citar como exemplo as séries de TV ou da Internet. Diria até que, na minha carreira, talvez não esteja no momento de fazer TV autoral, mas tenho muita vontade de produzir uma série para a internet. É muito amplo, traz muitas possibilidades.


 



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