Valmir Moratelli: Mais do que "ser", é importante "parecer ser"

No livro Diálogos para Santos Cegos, ele faz refletir sobre fama na era das fake news


  • 16 de novembro de 2018
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

Em seu mais novo livro, Diálogos para Santos Cegos, o carioca Valmir Moratelli, jornalista formado pela UFRJ, mestrando em Comunicação pela PUC-RJ e pesquisador de teledramaturgia, propõe uma importante reflexão sobre fama, vaidade e solidão. Tudo isso, na tão falada “era das fake news”. “Defino fake news como algo mais abrangente do que a tradução literal para ‘notícias falsas’, também é vender uma imagem diferente do que realmente é”, explica ele.

Segundo Valmir, que também trabalhou em veículos como TV Globo, revista Quem, portais iG e UOL, o fato de entrevistar durante um tempo muitas das principais celebridades do país, o ajudou a compor as histórias. A obra faz uma brincadeira entre realidade e ficção. “O livro reúne 17 contos em que todos os personagens buscam, de alguma forma, controlar e se perpetuar na memória das pessoas”, explica o jornalista.

Vale a pena embarcar nessa história! E até você poderá descobrir se é ou não uma “fake news”...

Foto: Leo Lemos/ RT Fotografia-Divulgação

Fale um pouco do que trata o livro Diálogos para Santos Cegos?

É um livro sobre fama, mas também sobre vaidades. Tem muita história inspirada em personalidades. A atriz que sempre viaja pra fora do país pra transar com garotos de programa, o padre cantor que age como a Beyoncé, o ator que não sabia o que fazer quando o seriado estava pra acabar, um crime passional com sabor de chiclete e etc. E no final, um perfil/entrevista com uma atriz prestes a sair de cena, na qual suas falas são, na verdade, recortes de aspas de Madonna, Woody Allen e até Susana Vieira.

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Esses 17 personagens existem, você conheceu de alguma forma durante os anos em que trabalhou com celebridades ou são ficcionais?

As celebridades me ajudaram de alguma forma a compor estas histórias. Tem coisas que a gente fica sabendo, ouve ou presencia, e depois pensa: ‘Até parece ficção’. Essa brincadeira entre realidade e ficção permeia todo o livro. Vou dar um exemplo: o conto Eram os deuses roteiristas?, que abre o livro, é a história de um ator que passou a vida inteira interpretando um mesmo personagem num seriado. Quando este seriado chega ao fim, o ator já não sabe viver, não sabe o que fazer da vida sem um roteiro na mão. Me inspirei no Marco Nanini. Após ele fazer por décadas o Lineu de A Grande Família, disse que já não conseguia se olhar no espelho e não se enxergar apenas como Lineu. É meio louco isso, não?

A gente que lida diariamente com celebridades sabe que existe nesse meio muita coisa de ego, vaidade... Acredita que hoje sai na frente quem é “real” na sua rede social ou quem faz uso ali também constante de um “personagem”?

Vivemos a era das fake news! Não tem jeito. Antes, o mais importante era ‘ter’. Agora é necessário parecer amigo, parecer ser tendência, parecer estar em Mikonos... E como toda moda de internet, logo isso vira a página. A internet é cruel, é perecível. Tudo fica cansativo muito rapidamente, é preciso estar antenado com os movimentos das redes sociais.

Como você diz no livro, a fama é capaz de elevar ídolos em Santos acima de qualquer suspeita. Mas com as redes sociais e as fake news, isso pode acontecer de forma contrária também, não?

Claro! É usado para o bem e para o mal. O livro tem um conto que eu, particularmente, gosto muito: Crime tutti-frutti. Mostra um pouco dessa fama às avessas. Ser famoso não é apenas fazer algo célebre, ao contrário! É ganhar notoriedade por qualquer coisa, inclusive por um crime.

Foto: Leo Lemos/ RT Fotografia-Divulgação

 Quando você teve esse insight de escrever sobre fake news num momento em que a fake news foi capaz de ser decisiva até na eleição de um presidente no Brasil?

A ideia desse livro surgiu há três anos, quando lancei o anterior, Eu rio tu urcas ele sepetiba. Queria falar de vaidade, de ego... Coisas que as redes sociais tanto estimulam hoje em dia. E percebi que meus personagens estavam sendo criados na premissa de que vivem em um mundo aparente, não em um mundo de fato real. O conto Os carismáticos, por exemplo, é sobre um padre que se acha popstar. Presenciei vários líderes religiosos mais preocupados em sua imagem do que na mensagem que queriam dar. É uma abrangência do termo ‘fake news’, que se tornou a palavra de 2018. Incorporei assim o subtítulo ‘Contos na era fakenews’.

Durante as suas pesquisas e aprofundamento sobre fake news, algum dado surpreendeu mais você?

Com as redes sociais, todo mundo se tornou produtor de conteúdo. Posta foto, faz textão, cria memes... Quando fiz pesquisa para os personagens, percebi que todo mundo se esconde por trás de aparências que nem sempre correspondem à realidade. No conto Frango com Farofa, por exemplo, o pai de um cantor famoso precisa lidar com a solidão em um bairro bacana, depois que seu filho estourou. Aparentemente ele estaria ótimo, afinal tem um filho rico e famoso. Mas por trás das suas paredes envidraçadas, esse pai sofre de abandono. Te lembra alguém famoso? Provavelmente... É quando ele resolve fazer algo para reverter isso, de forma trágica.  Vejo o ato de escrever e publicar um livro hoje como um ato de resistência, quando dezenas de livrarias estão sendo fechadas e a própria ficção vista como verdade por parte das pessoas. O problema das fake news é que estão dando status de verdade ao que deveria ser ficção, e quem faz ficção é pressionado a competir com a realidade. 

Foto: Leo Lemos/ RT Fotografia-Divulgação

Que tipo de reflexão você quer levar às pessoas com a sua obra?

Essa coisa de ser famoso, que foi facilitada pela democratização de conteúdo na internet, leva à solidão. A fama é uma experiência solitária. Não tem jeito. Você vai criar um factoide de si mesmo, vai fazer um filme ou novela incrível, qualquer coisa que te eleve a esta categoria de ‘santo’ midiático... Entretanto, no final das contas, seu preço é ficar sozinho. A fama cega as pessoas. Eu brinco com isso já no título da obra. E o altar desses santos é uma solitária. O livro se chama Diálogos para Santos Cegos em alusão a quem acredita que a fama transforma ídolos em santos acima de qualquer suspeita.

Depois do lançamento livro você vai dirigir um documentário sobre diversidade sexual. Fale um pouco sobre essa ideia, o diferencial do trabalho, qual o tipo de enfoque...

Começo a rodar um documentário sobre diversidade sexual, com depoimentos de diferentes pessoas, de várias regiões do país a cerca da temática diversidade. Essa ideia começou após a conclusão da minha dissertação de mestrado na PUC-RJ, na qual pesquiso temas-tabus na teledramaturgia nacional. Um desses temas-tabus é a questão da diversidade sexual, ainda um campo minado para se debater sem cair em clichês e preconceitos. Espero que o documentário ajude nessa discussão. E também preparo um livro, mais acadêmico, sobre as recentes políticas sociais e suas influências na telenovela brasileira. Mas isso eu conto depois, num outro papo. 



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